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      História da dispensa
      À volta do jogo

      Dispensa de João Pinto: quando o Benfica abdicou do Menino de Ouro

      Texto por Luís Rocha Rodrigues
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      Dispensar um capitão. Esta é a história de uma das decisões mais incompreensíveis da história do futebol português. Para todos os efeitos, foi o Benfica a abrir mão da sua maior figura, quando esta estava com 28 anos e às portas do Europeu, ainda que tal decisão tenha sido de um presidente e de um treinador, e contra a grande maioria da massa associativa. Um momento marcante, que abriu telejornais e que levou centenas de adeptos para as imediações do Estádio da Luz, onde se cantou o nome do camisola 8, se chorou e se pediram explicações a Vale e Azevedo e Jupp Heynckes. Aproveitou o Sporting...

      «O Benfica iniciou agora um novo ciclo na sua história, o qual implica profundas mudanças, reajustamentos e alterações sobre o passado recente. É neste contexto que foi celebrado este acordo»

      Este foi o comunicado dos encarnados. O carimbo oficial naquilo que até se podia especular, mas que ninguém poderia acreditar. Nem mesmo os principais rivais. A 2 de junho de 2000, vésperas do Europeu onde JVP estaria com a seleção nacional, o Benfica abria mão da jóia da coroa. João Pinto não era apenas um excelente jogador em campo, como também um símbolo da resistência e da resiliência num dos períodos mais conturbados da história do clube.

      Um Benfica em ruína... sem o saber

      Poucos eram os que, naquela altura, tinham a real noção da dimensão dos problemas do Benfica. Vale e Azevedo foi eleito em 1997 como presidente, sucedendo a Manuel Damásio, e no seu mandato foi criada a SAD encarnada e vendidos muitos sonhos... mas pouca obra. Houve uma conquista no ciclismo com David Plata, alguns êxitos no hóquei com Panchito Velázquez, mas pouco mais. No futebol, as falhas acumulavam-se e a estabilidade não existia. Heynckes sucedera a Souness no verão de 1999 e chegava com o rótulo de campeão europeu pelo Real Madrid (1998), só que a época tinha sido péssima, sobretudo com os impensáveis 7x0 de Vigo. No campeonato, mesmo que depois da marcante ida a Espanha o Benfica tenha chegado ao primeiro lugar, acabaria em terceiro, atrás de FC Porto e Sporting, o campeão, que eliminara as águias na taça logo na primeira ronda.

      Foi para o Euro 2000 como desempregado ©Getty /
      Quase tudo corria mal. Havia Nuno Gomes, Poborsky e João Vieira Pinto, mas nem para esses havia desconto. Na retina, ainda estava a famosa conferência de imprensa após Vigo, em que o capitão (JVP) e o sub-capitão (Paulo Madeira) pediram desculpas aos adeptos. Era o fim da quarta época sem qualquer título, sem nada para mostrar aos adeptos e novamente sem Liga dos Campeões. Ainda assim, a opção era a continuidade de Heynckes, com uma profunda mudança à vista.

      Se havia um intocável, esse era João Pinto. Há oito anos no clube, para onde se mudou por 500 mil contos pagos ao Boavista, o avançado passou a carregar o nome de «Menino de Ouro» por parte dos adeptos, como forma de retribuição pela resistência ao célebre Verão Quente de 1993, em que o então presidente Jorge de Brito o foi buscar a Espanha para o demover de seguir o caminho de Paulo Sousa e Pacheco, que assinaram pelo Sporting depois dos problemas financeiros na Luz, que lhes permitiram sair com o passe na mão. Aí, JVP assinou até 1997 por 400 mil contos por ano. Em 1997, já depois de passar a capitão de equipa (1995), chegou aos 500 mil contos/época, num «contrato vitalício», conforme anunciava Manuel Damásio.

      No campo, houve o inesquecível jogo dos 3x6, algumas grandes noites europeias, como em Leverkusen, e muita força para remar contra uma maré desfavorável, como nos 23 golos em 1995/96, dois deles na final do Jamor contra o rival leonino. Até podia já não ser, como fora nos primeiros anos, o maior símbolo da Geração de Ouro (efetivamente, Rui Costa e, sobretudo, Luís Figo tinham ganho outra notoriedade), mas poucos seriam os jogadores em Portugal que se poderiam equiparar ao camisola 8 dos encarnados.

      Carregou Benfica às costas vários anos ©Getty / Getty Images
      No clube da Luz, ninguém. Por alguma razão era ele o mais bem pago. Uma questão que teria custos, pois 1999/00 foi a sua época menos rentável: apenas três golos. E por aí pegou Vale e Azevedo... meio milhão de contos por um jogador que faz três golos por época é uma despesa muito alta. Esse foi o seu argumento principal, quando, no dia a seguir à oficialização, foi à SIC falar.

      «O João Pinto marcou três golos esta época. Em termos de rendimento/preço, havia uma discrepância muito grande», referia o presidente.

      Um longo braço de ferro

      Desde a chegada de Vale e Azevedo que a situação do capitão encarnado ficou dificultada, pois o advogado ter-lhe-á dito que, por ser um elemento caro em termos salariais, o Benfica não teria dinheiro para lhe pagar. João resistiu às tentativas de venda, nomeadamente ao Deportivo em 1998, o que não ajudou à situação e que fez com que se intensificasse o braço de ferro silencioso entre ambos.

      «Numa altura em que tinha sido operado ao maxilar, quando nem sequer conseguia falar, chamou-me ao escritório dele. Informou-me que me tinha vendido ao Deportivo, para eu falar com eles e decidir o meu futuro. Assim, de caras, sem o mínimo respeito, mais que não fosse pelo facto de eu não poder falar. Dessa vez resisti, também porque os adeptos se movimentaram, mostrando publicamente que desejavam a minha continuidade», relatou.

      Noutra ocasião, numa altura de renegociação salarial, em que o presidente tentou implementar uma política assente em prémios chorudos por vitória a todo o plantel, ao invés de elevados salários fixos, João Pinto resistiu e recusou o cenário. Perante isso, Vale e Azevedo acedeu a manter-lhe o salário e acrescentar-lhe os referidos prémios, de forma a poder anunciar publicamente que também o internacional português tinha aceitado a política imposta pelo presidente encarnado.

      «Há uma história curiosa, que por vezes recordo com o Rui Costa. Estávamos no Euro'96, em Inglaterra, e o Rui era o meu companheiro de quarto. O Vale e Azevedo candidatou-se à presidência pela primeira vez e queria contratá-lo. Num dos telefonemas que ele fez, estávamos os dois no quarto. Disse ao Rui que gostava de o ver regressar (até aí tudo bem), que ia ser o capitão de equipa e mandar naquilo tudo, quando eu era o capitão... Acabou por não ganhar dessa vez, mas depois, quando chegou à presidência, bastou lembrar-me desse telefonema para antever o que me esperava», contou, numa entrevista ao Record já no fim da carreira.

      Desamparado, o avançado foi vendo os episódios sucederem-se. Com Souness, chegou a ter um momento em que insultou o treinador, que posteriormente foi acusado por vários portugueses de menosprezar os jogadores nacionais, em detrimento dos estrangeiros (ficou famosa a armada inglesa que importou em 1998). «Ir para a Luz passou a ser um castigo», lamentaria, na descrição de um cenário que era tudo menos propício ao seu melhor rendimento. E pior ainda seria com Heynckes, pelo que o desfecho, ainda que surpreendente, teve todo um contexto. Menos para os adeptos.

      Reações iradas

      Quando rebentou a bomba publicamente, depois do derradeiro jogo de Portugal antes de partir para a Holanda para jogar o Euro 2000, a nação benfiquista ficou em choque, perplexa, incrédula com o que acabara de acontecer. Se dúvidas existissem em relação aos impulsionadores daquela medida, João Vieira Pinto dissipou-as, numa conferência de imprensa que deu e na qual se emocionou.

      «Fui dispensado, segundo informação da administração da SAD, pelo treinador, que disse que não contava comigo. Tenho 28 anos e não posso estar sem jogar, como devem calcular. Neste momento estou desempregado. Mas o que mais me preocupa neste momento é o futuro da selecção. Quero dar alegrias a todos os portugueses e a mim próprio. Porque neste momento estou muito triste. Não tive nenhum contacto, nem tenho nenhum tipo de acordo com nenhum clube. Neste momento, repito, estou desempregado e preocupado apenas com a selecção nacional. Tudo isto começou cinco horas antes do jogo da selecção. Foi aí que tive conhecimento de que estava na lista de dispensas do Benfica. Mais tarde, depois do jogo confirmei através do meu representante José Veiga. Foi muito difícil para mim esta situação. Ao longo dos anos tive vários clubes interessados em mim mas não aceitei. Não quero que se pense que fiquei no clube só por interesses financeiros. Gosto de me sentir útil quando estou num clube e neste caso não me estava a sentir porque o treinador resolveu prescindir dos meus serviços. Não tinha outra alternativa», lamentou o português.

      «O Benfica não são duas pessoas. Passei oito anos da minha vida lá e sinto um grande carinho pelo clube. Foram muitos anos de alegrias e de tristezas», tentou rematar.

      Fez 302 jogos e 90 golos ©Getty / Matthew Ashton - EMPICS
      Quem não aceitou de bom grado foram os adeptos. Várias centenas concentraram-se no Estádio da Luz e os visados foram essas mesmas duas pessoas. Muitos pediram a saída do treinador alemão, vários não tiveram problemas em chorar diante das câmaras, pedindo que houvesse um retrocesso no processo, e a grande maioria exigia explicações a Vale e Azevedo, que nessa altura já era bastante contestado - num exercício de teoria, talvez possa ter sido aí que a balança inverteu e que a maioria dos sócios tenha passado a tender para o outro lado, um lado que teria Manuel Vilarinho nas eleições do final desse ano.

      As explicações foram dadas pelo presidente. Na tal entrevista à SIC, além da questão financeira (para além do salário, chegou a dizer que as últimas propostas que tinha tido pelo jogador eram tão baixas, ao ponto de os próprios supostos compradores exigirem dinheiro ao Benfica para o levar), Vale e Azevedo alegava uma mudança de política e a contratação de «nomes fortes» a nível europeu para dar ao treinador garantias de uma época bem conseguida. Curiosamente, viria a ser a época do sexto lugar, pior classificação da história do clube no campeonato.

      Sobre os adeptos, relativizou: «Até estávamos a contar com a reação emotiva. É assim o futebol. Se calhar, durante os jogos o João Pinto terá sido assobiado e criticado por estas mesmas pessoas, se calhar a seguir marcava um golo e já era aplaudido... Até fico contente por haver este tipo de reação, porque quer dizer que as pessoas sentem o clube. Mas a nós cabe-nos decidir com racionalidade».

      Mais tarde, em pleno Europeu, daria a entender que foram bem mais os benfiquistas que lhe transmitiram terem gostado da decisão do que o que contava: «O João Pinto pode ir para onde bem entender. É um jogador livre que pode transferir-se para o clube que quiser. Não me preocupa se ele vai ou não para o Sporting, pois é um assunto que não me diz respeito. (...) Não, não vai criar problema absolutamente nenhum entre os dois clubes. Nunca pensei que esta medida se tornasse tão popular. Vejo, também, que foi uma medida que agradou a muito mais gente do que aquilo que nós pensávamos».

      Destino: Alvalade

      João Vieira Pinto emigrou muito novo, com 19 anos para o Atlético Madrid. Uma experiência que lhe correu muito mal, que o fez voltar e que seria a única no estrangeiro. Muitas foram as hipóteses de voltar a sair, mas talvez nenhuma como a do verão de 2000. Era um jogador livre e podia escolher o interessado que quisesse. Ainda assim, continuaria por Portugal.

      Teve duas fortes hipóteses logo a começar: o Newcastle, então treinador pelo emblemático Bobby Robson, e o Sporting. Sem pressa para decidir, dedicou-se ao Europeu, onde foi maioritariamente titular e no qual marcou um grande golo, de cabeça, à Inglaterra. Surgiram depois Liverpool e Fiorentina. No fim, mais um par de abordagens e o FC Porto também a querer estar na jogada, tentando antecipar-se ao Sporting, o mais bem colocado. Os leões já tinham ido duas vezes ao tapete na tentativa de contratar João Pinto (1992 e 1993) e os dragões, que tinham a oferta mais elevada, eram o clube de infância de João, embora o sentimento há muito se tivesse evaporado, quer nos tempos de Boavista, quer nos de Benfica. E a vontade de continuar em Lisboa ajudou.

      «Um dia antes de fechar o acordo com o Sporting, ainda me ligou Pinto da Costa. Queria encontrar-se comigo no dia seguinte de manhã. O Sporting fez-me um ultimato, a dizer que não podia esperar mais, e eu assinei. Permitia-me continuar a viver em Lisboa e jogar nas competições europeias. É um grande clube, já tinha tentado contratar-me duas vezes, à terceira foi de vez», explicou, numa entrevista à Sábado.

      2001/02 foi época em cheio ©Getty / Getty Images
      A escolha foi Alvalade, por um clube que tinha acabado de ser campeão e que ia jogar a Liga dos Campeões. João Vieira Pinto rapidamente caiu no goto dos adeptos e seria na sua segunda época o período mais alto, quando fez uma dupla impressionante com Mário Jardel. Porém, ainda naquele verão, Jupp Heynckes terminava o assunto (sendo que, mais tarde, JVP contaria que o alemão lhe telefonou durante o Europeu a dar os parabéns pelo golo à Inglaterra e a negar que tenha sido por sua vontade que a dispensa tenha acontecido).

      «João é um grande jogador. Se tinha lugar no Benfica? Sim, tinha lugar, mas o clube quis cortar com o passado e a sua saída enquadrou-se numa mudança global. No ano passado falharam muitas coisas. Abrimos um novo ciclo, por isso decidimos dispensar 14 jogadores. (...) [Sobre a ida para o Sporting] Sabia que ele não queria sair de Lisboa e de Cascais, pelo que não foi para mim uma surpresa ele ter ido para o Sporting», atirou, em pleno estágio para 2000/2001, uma temporada em que o técnico sairia muito cedo, chegando José Mourinho para o seu lugar, pouco antes de o próprio Vale e Azevedo ter perdido as eleições.

      Aí sim, deu-se um novo ciclo no Benfica. Mas nunca mais com João Vieira Pinto.

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      Comentários (2)
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      motivo:
      João Pinto
      2020-04-14 17h56m por CreedEinsteinBratton
      Provavelmente o maior erro desportivo da história do SL Benfica?
      YA
      As diferenças para o SLB actual. . .
      2020-04-13 14h37m por Yazapeyroteu
      As diferenças são os títulos! Naquela altura não ganhavam a ninguém (salvo seja), ficavam em sexto ou sétimo lugar na Liga, mas o Presidente na altura dizia que eram os maiores e íam ser ainda maiores, apesar dos resultados desportivos e financeiros demonstrarem o contrário. Na era Vale e Azevedo passaram grandes jogadores pelo Benfica e grandes treinadores, faltou sempre muita coisa para lutar pelos títulos. Para quem tem dúvidas. . . bons jogadores e bons treinadores, por si só, não c...ler comentário completo »
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