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      Tragédias

      Miki Fehér: O Último Sorriso

      Texto por Luís Rocha Rodrigues
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      Acordar, olhar para o calendário e pensar: tanto tempo já passou depois daquele momento... Não há adepto, treinador, jogador, jornalista, árbitro, dirigente que, ao rever as imagens da trágica morte de Miki Feher, não solte um arrepio, não encharque os olhos, não suspire!

      qDe repente, acontece algo que ninguém estava à espera e do qual eu nunca tinha ouvido falar, sequer
      Fernando Aguiar
       A televisão mostrou, primeiro, um estorvo do húngaro ao lançamento de um adversário, depois, um cartão amarelo do árbitro, a seguir um sorriso, aquele inesquecível sorriso completado com uma mão a soltar o cabelo loiro, humedecido por suor e chuva fria. Tudo normal, até ao estranho amparo do tronco com as mãos nos joelhos... Cansaço? Talvez. Mas não, o estrondo que se seguiu ditou a queda fatal, com o cabelo loiro a ser atirado violentamente ao solo. Os jogadores acudiram, Sokota deslizou-o para uma posição lateralizada, enquanto outros chamavam desesperadamente os intervenientes médicos. O estádio assobia, pensando tratar-se de anti-jogo do adversário, pela curta vantagem, mas logo sustém a respiração ao ver Tiago com as mãos na cabeça, Miguel ajoelhado e de rosto tapado, Simão impotente. «Miklos Fehér, Miklos Fehér!!» Cantou-se a uma só voz, surgiu um laivo de esperança, Argel pediu apoio, as vozes multiplicaram-se... Mas tudo foi insuficiente. Inacreditavelmente, para os seguidores de um futebol muito raro nestas coisas, Fehér não voltaria a acordar...

      ©Getty / LUIS VIEIRA
      Fehér não era um jogador de top mundial, não era um jogador de top do campeonato português, nem sequer era um titular no Benfica, como não tinha sido no FC Porto. Era, quanto muito, uma promessa do futebol húngaro e do campeonato nacional. Mas a vertente futebolística não é chamada ao caso. Fehér tornou-se um símbolo, não apenas do Benfica ou da Hungria, mas de Portugal e do futebol.

      25 de janeiro, noite em Guimarães, frio e chuva brindavam um intenso, mas mal jogado, Vitória SC x Benfica. Fehér estava a jogar pouco, vinha de apenas uma participação nos anteriores quatro desafios para o campeonato, só que Nuno Gomes não pôde ir a jogo e, face ao nulo, o avançado foi a primeira opção de Camacho, entrando ao minuto 58 para o lugar de João Pereira.

      A vitória haveria de chegar em cima do minuto 90, contra a equipa vitoriana (que, na altura, era treinada por Jorge Jesus), através de um golo de outra opção vinda do banco de suplentes: Fernando Aguiar.

      «Todos os anos, por esta altura, passa-me sempre a mesma coisa pela cabeça: marcar o golo e logo a seguir o Miklos cair para o lado. Logo na hora tive aquele feeling de que algo estava mesmo muito mal», referiu, ao iniciar a conversa com o zerozero, relativamente a um tema que mostrou recordar com lucidez.

      ©Getty / LUIS VIEIRA
      «Nunca estamos à espera de uma coisa destas. Era um jogo numa noite fria e de chuva e acontece algo que ninguém estava à espera e de que eu nunca tinha ouvido falar, sequer. Foi trágico, pois estávamos a fazer aquilo que fazemos sempre, que é jogar futebol», considerou.

      O desespero foi visível, no estádio e na televisão, mas prolongou-se pelas horas seguintes, numa apreensão lógica de quem sentia o palpitar de uma catástrofe a chegar. Angústia, medo, ansiedade, pânico e um balneário rasgado por gritantes ruídos de... silêncio.

      ©Getty / MIGUEL RIOPA
      «Quando chegámos ao balneário, imperou o silêncio, no máximo havia os que abraçavam outros. Ali só queríamos tomar banho rapidamente para irmos para o hospital, embora soubéssemos que a situação era muito negra e muito grave», explicou Fernando Aguiar, nesta entrevista ao zerozero.

      Tragédia que fortaleceu união, mas que não sai da memória

      Fernando Aguiar ainda vai estando ligando, como não podia deixar de ser, ao futebol. E Fehér continua presente...

      «Confesso que, a partir daí, fiquei um bocado abalado, com medo que alguma coisa me acontecesse, estava sempre com a mão na pulsação. Ainda hoje, quando há um treino mais forçado, acabo a pensar nisso e a controlar a respiração para me certificar que está tudo bem comigo», confessou.

      ©Getty / MIGUEL RIOPA
      Naquela altura, a equipa já via o FC Porto de Mourinho destacado na frente do campeonato, uma formação que, resto, viria a sagrar-se campeã europeia. Porém, faltava a Taça de Portugal e, no Jamor, Benfica e FC Porto discutiram o troféu. Fyssas e Simão Sabrosa fizeram os golos da vitória por 2x1, que serviu não apenas para o regresso à conquista de títulos, mas também para homenagear o camisola 29, que tinha deixado um grupo «ainda mais unido».

      «Éramos um grupo forte e amigo, mas aquilo tornou-nos ainda mais unidos e queríamos ganhar alguma coisa para simbolizar aquela época. Acabámos por ganhar a Taça de Portugal e a união foi realmente enorme, tanto que ainda hoje falo frequentemente com muitos dos meus colegas da altura», considerou o médio luso-canadiano.

      Fehér, o reservado, estava a aparecer

      Somava 24 anos e meio (faria 25 em julho) e tinha chegado a Portugal muito cedo, para o FC Porto. Chegou a comemorar o Penta, só que esteve noutras paragens (Salgueiros e SC Braga) para ter mais oportunidades e acabou por sair dos dragões em litígio.

      ©Getty / MIGUEL RIOPA
      Seguiu-se o ingresso no Benfica e uma época e meia de águia ao peito. Na primeira, tinha feito quatro golos em 18 jogos, na segunda já levava mais um jogo disputado e o mesmo número de golos, o último dos quais contra os belgas do La Louvière (1x0), no Estádio do Bessa, em jogo da Taça UEFA.

      O espaço ia sendo trilhado a pulso, por causa da forte concorrência, mas Miklos Fehér conseguiria a afirmação, segundo a convicção de Fernando Aguiar: «O Fehér tinha uma concorrência bastante forte. O Sokota estava muito bem naquela altura, muito forte e agressivo, a quem não era fácil tirar o lugar. O Nuno Gomes era um excelente avançado. Contudo, o Fehér era novo e estava a aparecer, não tenho dúvidas de que seria um avançado que se iria afirmar no futebol português».

      E, para além do jogador, que pessoa se perdeu? «Não era uma pessoa de muita conversa. Era muito reservado e gostava de estar no seu cantinho. Apesar de gostar de entrar nas brincadeiras, não era uma pessoa extrovertida, mas toda a gente gostava dele».

      ©Getty / -
      A vida de Miklos levou um pontapé de surpresa, que enganou toda a gente, naquela fatídica noite. Existem os passes, os cruzamentos, os dribles, os desarmes, os golos e tudo no futebol parece ter um efeito de sucesso e também uma fórmula que contrarie a lógica. Tudo, menos a morte, porque nisso também o futebol é pequenino...

      Até sempre, Miklos Fehér!

      [Artigo originalmente publicado a 25 de janeiro de 2014]

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