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      Javier Zanetti: El Tractor Nerazzurro

      Texto por Ricardo Gonçalves
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      No penúltimo jogo da temporada de 2011/12, o Giuseppe Meazza experienciou um momento de beleza extraordinária. Aos 82 minutos do dérbi de Milão, que o Inter ia vencendo por 3x2, Javier Zanetti pegou na bola à entrada da sua área e percorreu todo o campo, batendo todos os adversários que lhe apareceram pela frente, até chegar à área adversária. O lance não deu golo, mas ainda assim as bancadas explodiram em aplausos ao jogador mais rápido, forte, e determinado em campo. Esse jogo marcou o regresso aos relvados após lesão de Zanetti, um atleta que pouco tempo depois completaria 39 anos.

      O argentino impressionou durante a carreira pela sua longevidade, mas não só. Mais do que o tempo que jogou futebol profissionalmente (uns impressionantes 22 anos), é a incrível a consistência do seu desempenho e qualidade durante esse tempo. Fosse a idade 18 ou 40, Zanetti jogava sempre como se fosse o seu último jogo. Com o trabalho incansável de um cavalo, força de um touro, e a ponderação do líder de homens que era.

      Com Taribo West, Simeone e Zamorano ©Getty / Claudio Villa
      Na sua carreira de clubes conquistou tudo o que havia para ganhar: cinco vezes campeão da Serie A, quatro Copa Italia, e quatro Supertaças. Tudo enquanto capitão do Inter, clube pelo qual também venceu a Taça UEFA e a Liga dos Campeões. Mas, mesmo depois de viver a vida de um vencedor lendário, nunca se deslumbrou. Como o próprio garante, foi algo da sua educação.

      Humildade no início, humildade para sempre

      Javier Zanetti nasceu e cresceu em Buenos Aires, numa família de poucos meios. Desde miúdo viu a sua mãe e pai a trabalhar sempre que podiam e ao máximo esforço para lhe dar uma vida e educação dignas, algo que não passou indiferente ao pequeno Javier, tornando-o no homem que foi.

      Numa Copa América com Bielsa ©Getty / Matthew Ashton - EMPICS
      Também Zanetti começou a trabalhar assim que possível, dedicando o resto do seu tempo a trabalhar no seu futebol e condição física. Nunca preguiçou e nunca fez algo que não trouxesse benefícios à sua família. A atitude e trabalho do jovem foram recompensados através do futebol, onde conseguiu o seu primeiro contrato profissional com o Talleres Remedios de Escallada.

      O Talleres-RdE disputava a segunda divisão na Argentina, mas bastou uma temporada para saltar para a primeira, a convite do Banfield, clube onde fez duas temporadas de grande nível antes de fazer as malas com destino a Milão, a troco de 6,5 milhões de euros.

      O começo no Inter ©Getty / Getty Images
      Independentemente dos voos mais altos que seguiu na carreira, Zanetti nunca esqueceu os clubes argentinos que lhe deram a oportunidade de entrar no futebol, voltando frequentemente ao estádio e ajudando os clubes a crescer. Fazia parte da personalidade dele, sempre tirou algum do seu tempo para ajudar os outros. Aliás, falamos de um homem que durante a sua carreira fundou duas instituições: Com a sua esposa fundou a Fundación PUPI, para ajudar a integração de crianças pobres na comunidade, depois da crise económica argentina; e com o colega de equipa e seleção Esteban Cambiasso fundou a Leoni de Potrero, para dar treinos de futebol a crianças com distúrbios sociais ou problemas de coordenação motora.

      O Trator Híbrido

      Zanetti era conhecido entre os colegas de equipa pelo seu regime de treino privado fora dos treinos, que o próprio creditou pela longevidade da sua carreira. Com os seus treinos de fitness e ginásio, era mais forte e tinha mais resistência que qualquer outro com quem partilhasse o campo. Sempre com energia na ala direita, entre ataque e defesa. Pela sua maneira de jogar, ficou conhecido como El Tractor, alcunha que também pegou em Milão.

      Na Europa, particularmente num país aclamado pela qualidade defensiva, o argentino destacou-se rapidamente por nunca errar a abordar os lances enquanto defesa. Nenhum atacante passava por ele, o bom posicionamento e capacidade de corte significava que era muito disciplinado, registo apoiado pelos poucos cartões que recebeu numa longa carreira.

      Ainda assim, uma das coisas mais impressionantes acerca das exibições consistentemente boas era o facto de Javier Zanetti não jogar sempre na mesma posição. Maioritariamente lateral direito, sim, mas o facto de ser ambidestro e a tremenda capacidade de passe significava que era competente em praticamente todas as posições. A versatilidade serviu-lhe bem, acabou a carreira com quase tantos jogos a médio centro como na sua posição original. Jogou frequentemente a lateral esquerdo e teve várias épocas a extremo, bem como opção de recurso a defesa central para alguns dos 19 treinadores com quem trabalhou no Inter. Era um trator, sim, mas um trator híbrido.

      Conquistas e mais conquistas ©Getty / PIERRE-PHILIPPE MARCOU
      Na época de 2009/10 conquistou tudo, campeonato, taça e Champions League: a tríplice coroa. E fê-lo numa equipa que se destacava por ter Maicon, o potente lateral direito que durante o período de forma desse ano se destacou como o melhor do mundo na sua posição. Ainda assim, José Mourinho não prescindiu do seu capitão. Nessa época, um Javier Zanetti de 34 anos por pouco não foi totalista em todas as competições, com quase 5 mil minutos jogados, quase sempre na posição de médio defensivo.

      Em suma, Javier Zanetti era o jogador perfeito para qualquer treinador. Não só era o protótipo do profissional exemplar, como era exibicionalmente consistente em qualquer posição. Lia o jogo como mais ninguém, era rápido, forte, e possuía grande técnica. Mas, acima de tudo, era um verdadeiro líder dentro e fora do relvado.

      Il Capitano «4ever»

      Uma história importante na carreira do argentino é a de Adriano, avançado brasileiro mais conhecido como Imperador. Adriano era, apesar de ainda jovem, um dos melhores jogadores do mundo, e para ele adivinhava-se um futuro brilhante. Mas o brasileiro tinha saltado muito rapidamente das favelas para o estrelato e o dinheiro, e aí Zanetti viu o perigo:

      «É muito complicado ficar rico quando não se tinha nada antes. Todos os dias, depois do treino, perguntava-lhe onde ia e o que ia fazer. Tinha medo que se metesse em algum sarilho.»

      «O Adriano era muito apegado ao pai» disse Zanetti, antes de falar no dia em que o pai do Imperador faleceu. «Quando soube, atirou o telemóvel e começou a gritar. É impossível imaginar aquele grito, fico com arrepios. Desde esse dia, o Moratti e eu cuidamos dele como um irmão mais novo.»

      O brasileiro continuou a jogar, marcava golos e apontava para o céu, mas nunca mais foi o mesmo. Mais tarde, Adriano veio admitir que teve grandes problemas de alcoolismo e que tem pena de Zanetti, pois fez tudo por ele naqueles tempos.

      «Não conseguimos tirá-lo da depressão. Essa é talvez a maior derrota da minha carreira. Ainda me dói, estava tão impotente.» disse o capitão, comprovando a sua filosofia de primeiro homem, e só depois jogador.

      Levantou a Orelhuda em Madrid ©Getty / Matthew Ashton/AMA
      Nem tudo foi mau, desde o início Zanetti viveu grandes momentos em Milão. Uma década antes, nos anos 90, surgiu no Inter a liderança de Massimo Morati, um empresário astuto que queria investir. Semelhante aconteceu com os rivais do AC Milan, que estavam sobre a direção de Silvio Berlusconi. A ascensão do futebol na cidade durante essa época deveu-se principalmente às grandes quantidades de dinheiro injetadas pelos magnatas que dirigiam os dois clubes.

      Aliás, uma das primeiras ações de Moratti no clube foi mesmo a contratação de Zanetti. Decisão que o tempo veio a confirmar como uma das mais corretas na história do clube.

      Pelo Internazionale foram 19 anos de serviço em que colecionou recordes. É o jogador com mais partidas da história do clube, com 861. Atleta com mais troféus pelo clube, com 16. O estrangeiro com mais jogos da Serie A. Também pela Argentina usou a braçadeira e bateu o recorde de internacionalizações: 143 jogos pela albiceleste.

      Marcou na final da Taça UEFA em 98 ©Getty / Matthew Ashton - EMPICS
      Em 1999, com 26 anos, começou a utilizar a braçadeira frequentemente, e dois anos depois foi oficialmente declarado capitão do clube. Foi nos 14 anos seguintes que Zanetti conquistou 15 dos 16 troféus que ganhou pelo clube, sendo a única excepção a Taça Uefa de 1997/98, conquistada ao lado de nomes como Ronaldo, Recoba, Simeone, Djorkaeff e Paulo Sousa.

      Il Capitano, como foi apelidado pelos nerazzurri, apaixonou-se pelo clube e cidade de Milão. A vida que levava em Itália encaixava com os seus valores cristãos e princípios familiares, que incluíam a lealdade que sempre mostrou ao clube. Ao longo da carreira, rejeitou propostas de outros grandes clubes do mundo: Manchester United, Real Madrid e Barcelona, entre outros, apenas porque podia ficar no clube onde era feliz e alcançar grandes feitos com ele, como fez.

      No dia 18 de maio de 2014, 1103 partidas depois da estreia, Javier Zanetti fez o seu último jogo oficial. Tinha 40 anos e 9 meses, também um recorde do clube. O jogo acabou com uma derrota por 1x2 em casa do Chievo, na última jornada da temporada de 2013/14, mas não foi por isso que o nome do argentino não foi celebrado. Com as chuteiras de Zanetti foi também pendurada a camisola 4 nerazzurri, pois o clube retirou o número em sua honra.

      Ficou uma mágoa: não conseguiu qualquer título pela seleção da Argentina.

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      Javier Zanetti (ARG)
      Javier Zanetti (ARG)
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      motivo:
      Enorme jogador
      2020-03-21 15h09m por tcb9277
      Ainda não percebo porque é que o Maradonna não o convocou para o Mundial de 2010.
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