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Cristiano Pereira: o Bastião da Invicta

Texto por Humberto Ferreira
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A multidisciplinaridade podia ter feito de Cristiano Pereira um desportista de qualquer modalidade, mas escolheu o hóquei em patins, porque num certo dia de 1958, quando o FC Porto se preparava para conquistar o primeiro título regional da modalidade frente à Académica de Espinho, o pai, depois de o ter levado ao rinque dos dragões, o foi deixar em casa. Estava demasiado cheio para um jovem de sete anos. Ali nasceu a vontade de não ver o jogo de fora.

Nascido e criado no Porto, Cristiano Pereira vivia ao lado daquilo que um dia chamou a «Academia da Constituição». Não era apenas um espaço, aquilo era o espaço do desporto: futebol, hóquei em campo, andebol de 11, voleibol, basquetebol, hóquei em patins, entre muitos outros.

Experimentou grande parte dos desportos, foi contemporâneo de Fernando Gomes, presidente da FPF, no espaço. Cristiano seguiu para o hóquei em patins. Lá em casa, todos gostavam (pai, mãe e irmão) e como tal a decisão foi simples.

Crescer perto com o sonho longe

Cristiano Pereira ouvia o corropio desportivo ao lado de casa desde o nascimento, mas naquele tempo não havia desporto para ‘catraios’ e só com 13 anos é que pôde jogar alguma coisa de forma oficial.

Não havia infantis, iniciados ou juvenis, apenas juniores e logo depois os seniores. Cristiano, simplesmente Cristiano, arrancou com 13 anos nos juniores e ainda antes de fazer 16 anos já estava na equipa sénior portista.

©FC Porto
Alto, esguio, rápido, com capacidade goleadora acima da média, Cristiano era diferente dos demais, mas jogar na cidade do Porto era um desafio constante. O Benfica primeiro e o Sporting depois dominavam a modalidade no que a títulos diz respeito e por uma mão cheia de vezes foi vice-campeão.

A primeira viragem de títulos surgiu quando, em 1969, conseguiu vencer o campeonato metropolitano, a prova nacional que juntava Portugal e as nações ultramarinas, como Angola e Moçambique.

Único na seleção

O sinal da diferença de Cristiano para grande parte dos outros jogadores foi público no início dos anos 70. A seleção nacional passou a ser uma realidade. Torcato Ferreira, selecionador nacional viu nele o homem certo para atacar as balizas adversárias e durante anos foi o único jogador a ‘furar’ convocatórias onde Benfica e Sporting preenchiam quase na totalidade.

Venceu dois mundiais e quatro europeus nesse período e esteve num jogos de maior impacto, no que a seleções diz respeito: Mundial de 82, que Portugal venceu em Barcelos, na primeira fase de grupos, quando a seleção nacional goleou a Guatemala por 29x0.

O estatuto de ‘estrela’ fez de Cristiano um dos avançados mais desejados do hóquei em patins europeu. Jogou em Itália, no ASD Viareggio, e em Espanha, na Corunha, no Liceo. Regressou a Portugal pela porta do Benfica, mas não perdeu a oportunidade de terminar a carreira na casa partida, o FC Porto, e com dois títulos de campeão nacional, numa altura em que os dragões começavam o ‘reinado’ de Jorge Nuno Pinto da Costa e os títulos que se seguiram a partir daí.

Patins travados e um treinador campeão

Cristiano Pereira nem necessitou de ter um ‘período de nojo’ para atacar a carreira de treinador. Deixou uma e abraçou logo a outra. Em 1985/86, ficou do lado de fora, a ver os amigos dentro da pista, aqueles de quem tinha sido colega de equipa. E fê-lo à grande. Essa foi a maior temporada de títulos de uma só equipa em Portugal. Ganhou tudo: campeonato, taça, supertaça, Taça dos Campeões Europeus, a primeira do FC Porto, e por fim a supertaça europeia.

©FC Porto
A prova europeia é relatada como sendo algo estoico. Em Novara, Itália, e com um ambiente completamente adverso, os dragões levavam uma vantagem da primeira-mão de dois golos e o jogo não chegou ao fim. O Novara, potência da modalidade na altura, não conseguiu inverter o resultado e os adeptos invadiram o terreno de jogo a quatro minutos do fim. O árbitro deu o jogo como terminado e foi no balneário que os dragões receberam a taça.

Ganhou no FC Porto e continuou a ganhar quando saiu das Antas. Em Barcelos, voltou a sentir-se ‘midas’ ao dar aos minhotos mais um título europeu.

Um Portugal imparável

A olimpo da fama era intocável para Cristiano. Continuou a ganhar nos dragões, até que a seleção nacional chamou por ele. O desafio era enorme: Ser Campeão do Mundo em casa.

O cenário era o melhor de sempre: FC Porto e OC Barcelos tinham sido os últimos campeões europeus, o Benfica tinha ganho a Taça CERS. Portugal tinha os melhores jogadores do Mundo. No emblemático Palácio de Cristal, na cidade do Porto, Portugal venceu de forma implacável. Melhor ataque, melhor defesa e uma festa imensa.

Não havia dúvidas da forma de trabalhar e abordar o jogo. Cristiano Pereira conseguia tirar dos jogadores o melhor de cada e os elogios eram dos próprios jogadores.

Depois de ter estado, e ter ganho novamente no FC Porto, voltou à seleção nacional e voltou a ganhar em casa. O Europeu de 1998 foi durante anos o último conquistado por Portugal e foi Cristiano Pereira um dos obreiros da conquista.

Sair a ganhar

Voltou ao FC Porto após a morte de António Livramento, numa altura em que a modalidade começaava a ganhar outro crescimento físico. Mas até aí Cristiano se soube adaptar. Os dragões já estavam num outro patamar organizacional, os jogadores tinham outra carga de treino e a forma de olhar para a modalidade passou a ser outra.

Mesmo assim, conseguiu ganhar e apenas os problemas de saúde o obrigaram a parar. Apareceu anos mais tarde na seleção italiana, num projeto menos intenso, mas nessa altura o hóquei italiano já tinha sido ultrapassado por todos os outros.

É presença assídua em vários pavilhões. Gosta de andar pelo Infante Sagres a observar os mais novos que podem aparecer na modalidade. Talvez um dia possa descobrir algum novo Cristiano...

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