2020/03/12
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Este espaço, do jornalista Carlos Daniel, pretende ser de abordagem e reflexão sobre o futebol no que o jogo tem de melhor. Semanalmente, uma equipa será objeto de análise, com notas concretas que acrescentam atualidade.
Nunca Arrigo Sacchi teve tanta razão, Sacchi, lendário treinador italiano, coisa irónica ser do país mais castigado da Europa com este vírus maldito, disse ele aquela frase do futebol ser apenas a coisa mais importante entre as menos importantes da vida, percebemo-la hoje melhor que nunca e soam mais absurdos ainda os insultos no desporto a quem não é da nossa cor, seja da pele ou do cachecol, que o futebol é apenas algo que nos pode emocionar, não é coisa que nos salve. E o futebol pára para que a vida continue, porque, à hora que escrevo, há um infetado no Real Madrid, outro na Juventus, isto chega aos ídolos que parecem intocáveis, Ronaldo procura refúgio mais seguro na ilha onde nasceu, Tom Hanks foi contaminado, depois de Luis Sepúlveda, eles como uma adolescente sem problemas anteriores conhecidos mas que inspira agora cuidados a sério numa cama do Hospital de São João no Porto, ninguém está verdadeiramente seguro, nenhum de nós se pode sentir a salvo perante este agressor sem rosto. O futebol de tantas horas de debate inútil, alimentado de propaganda profissional e ódio pessoal, está despido da sua superficial relevância e profunda omnipresença. Acertou Sacchi, enganou-se definitivamente Bill Shankly: o futebol não é caso de vida ou morte, é mesmo muito menos importante que isso.
 
No futebol que resta, vénia a Oblak, que será o melhor guarda-redes do mundo, o mais eficaz, o mais decisivo. Com ele, o Atlético de Madrid eliminou o campeão continental Liverpool, algo que nunca teria conseguido sem o esloveno que os portugueses conhecem bem. Poucas vezes num jogo só foi tão fácil perceber a diferença que um guarda-redes pode fazer. Do outro lado, a defender os de Anfield Road, esteve Adrián San Miguel, experiente espanhol que é santo de nome apenas, não mais que um conformado suplente de Allison. Estivesse o brasileiro na baliza e Klopp ainda sonharia com a repetição do título europeu. Oblak não terá a elegância de Allison, o carisma de Neuer, as acrobacias de Keylor Navas ou o jogo de pés de Ter Stegen, não é propriamente bonito na baliza, concedo, ligeiramente corcunda e com aqueles braços aparentemente mais compridos que os de um homem comum, mas não falha em nada do que é essencial na função. Fortíssimo no um para um quando perante avançados isolados, exibe reflexos absurdos para defesas impossíveis, parece ter sempre as soluções mais simples para problemas complexos e acrescenta o que é essencial para atingir o nível de topo: um controlo exemplar do tempo e espaço, o que o faz estar onde é preciso no momento certo. Em Oblak, nada é excessivo, com exceção da qualidade. Faz tudo com aquele ar tranquilo, de burocrata competente, nada preocupado em brilhar, antes com a certeza de que não pode mesmo é falhar. Não aprecio o futebol do Atlético de Madrid, que há muito me desagrada o resultadismo em geral e o cholismo em concreto, naquela ideia absurda de que é possível estar mais perto de ganhar jogando pior ou de marcar atacando menos. Tal não me impede de valorizar a vitória do Atlético perante a melhor equipa mundial do momento, mas sobretudo me obriga a sublinhar o contributo decisivo de um homem que nasceu para viver numa baliza: Oblak, o bloco de gelo de braços imensos.
 
Nota coletiva: Leipzig e Atalanta – A aparência pode ser a inversa, a de que equipas com menores orçamentos e inferiores recursos individuais têm de se proteger taticamente – sem eufemismos, defender mais – perante os grandes colossos que dominam o futebol europeu. Acontece que a realidade tem dito o contrário. No ano passado o Ajax, agora Atalanta e Leipzig, ninguém apostaria neles, uns meses antes, como integrantes da elite dos oito melhores da Europa. E todos diferentes, todos iguais, ou seja, os modelos de jogo são muito distintos, mas há um traço comum determinante que é o da audácia. Qualquer deles joga para ganhar, indiferente ao ambiente e ao rival. Que seja uma lição para tantos outros que se conformam com a impotência internacional. Até porque equipas assim, por várias razões, só podem fazer bem ao futebol.
 
Nota individual: Jamie Vardy – Unânime nunca será mas a mim encanta-me, o homem e o seu sonho: da subida a pulso a partir de divisões inferiores, na capacidade de ser goleador sempre e até ao topo. Há-de ser dele a fotografia mais justa para ilustrar o crescimento deste Leicester que um dia contaremos aos netos. Hoje, nos azuis, delicio-me com a qualidade construtora do turco Soyuncu, o futebol empolgante do miúdo Barnes, mais ainda com o talento natural de Maddison, mas nada me emociona mais que uma arrancada de Vardy, ainda uma seta aos 33 anos e sempre um bombardeiro com mira calibrada. Reconheço nele quase um lado místico, como via em Jardel, num estilo oposto, como se o golo chamasse por eles. E confesso que me rendo sempre a um ponta de lança que remate mesmo bem, que quando enquadra a baliza já não vacile, como exemplarmente faziam Shearer ou Batistuta. Vardy não tem o mesmo talento mas também nunca vacila. É um jogador raro numa história irrepetível.


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