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      Entrevista à Tribuna Expresso

      (11MAIO2019)| Carlos Martins: «O Jesus fez o sinal da cruz e disse que eu estava riscado, à frente de todos»

      2020/06/01 15:58
      Texto por Tribuna Expresso
      E1

      Entrevista da autoria da jornalista Alexandra Simões de Abreu da Tribuna Expresso, originalmente publicada a 11 de maio de 2019 e que pode ser vista na publicação original aqui e aqui.

      Aos 37 anos Carlos Martins explica na primeira pessoa como foi duro vir para Lisboa, sozinho, aos 11 anos, jogar no clube do coração, o Sporting. Confessa também que dois anos depois, pediu para voltar para casa por não aguentar as saudades dos pais e irmãos. E explica como as lesões constantes na perna direita, uma consulta na Alemanha e o departamento médico do clube de Alvalade acabaram por levar à sua saída, pela mão de Paulo Bento. Amanhã é publicada a segunda parte desta entrevista onde fala da doença do filho Gustavo, que precisou de um transplante de medula, do Benfica e de como Jorge Jesus foi o melhor e o pior treinador que teve.

      Comece por fazer um retrato do sítio onde nasceu e da sua família?
      Nasci numa simples aldeia, Gavinhos de Cima. onde habitavam umas 300, 400 pessoas. Antigamente havia muitos jovens, mas hoje desapareceu tudo, é quase uma aldeia deserta. A minha mãe, Maria de Fátima, sempre trabalhou em casa e cuidou dos filhos. O meu pai, Antonio Carlos, é engenheiro de automação elétrica. Tenho mais três irmãos, um mais velho, o Nelo, outro abaixo de mim, o João, que também foi jogador, e uma irmã, Joana Beatriz, mais novinha, tem agora 16 anos. O meu pai sempre quis ter uma menina. Uma família simples, muito feliz, que ainda hoje é muito unida. Há muito amor entre todos, quando um está mal, estão todos mal. Os meus pais ensinaram-me muita coisa boa que tento passar aos meus filhos.

      Era um miúdo traquina?
      Dizem-me que sim. A escola era ao lado dos bombeiros e quando ouvia a sirene saia logo a correr da sala e a professora tinha de ir atrás de mim (risos). Eu não me recordo, é o que me dizem. Sempre fui agitado, sempre gostei de desporto.

      O que dizia que queria ser quando fosse crescido?
      Eu queria ser igual ao meu pai, sempre.

      E da escola, gostava?
      Gostava, era bom aluno.

      Quando era pequenino lá em casa torcia-se por que clube?
      Sporting. Só a minha mãe é que era benfiquista, mas acho que já mudou também (risos). De resto era tudo do Sporting.

      O primeiro clube onde joga é o Sporting?
      Não. O meu primeiro clube é o Tourizense. O meu irmão Nelo é dois anos mais velho do que eu e só havia equipa para o escalão dele, mas como as pessoas viam que eu já dava uns toques, deixaram-me entrar na equipa dos mais velhos. Tudo começou aí, com 8 anos, jogava sempre com os colegas da idade do meu irmão. Até que fomos fazer jogos à Associação de Coimbra e alguém reparou em mim: dois olheiros, um queria que fosse fazer testes ao FCP e outro ao Sporting. O meu pai, sportinguista como é, disse: “vamos para Lisboa”.

      Foi a Lisboa só com o seu pai?
      Fomos todos, a tropa toda. Lembro-me que o meu pai estacionou o carro em Entrecampos e disse: “o campo é já aqui” (risos). Fartámo-nos de andar, andar . “Ó pai onde é que fica o campo?”, “é já aqui! Vocês não querem andar pá, andem lá” (risos). Ainda hoje é risota lá em casa esse episódio porque o meu dizia que ia estacionar o carro ao lado do campo.

      Quando chega a Alvalade como foi o primeiro impacto?
      Eu estava muito envergonhado. Para já, vi muitas pessoas, em Gavinhos habituado a ver 10 famílias, pouca gente na rua; chegar à capital e ver tanta gente... estava meio atordoado. Felizmente, as coisas correram bem. Fiz um treino em que disseram logo que me queriam. Cheguei a fazer um segundo treino, mas foi só para me dizerem que podia voltar para a terra e que iam entrar em contacto com os meus pais.

      Qual foi a reação dos seus pais?
      O meu pai diz em casa que quer falar com a família toda. Diz que o Sporting me quer e pergunta-me o que quero fazer. A minha mãe chorava. "Não, ele é menino, só tem 10 anos". O meu irmão Nelo, que sempre dormiu comigo até ali - era o mais velho mas eu é que o protegia - chorava e dizia que não queria que eu fosse embora porque iria dormir sozinho e que eu era a companhia dele (risos). O meu pai achava que eu devia ir, que era uma oportunidade. O meu irmão João, que tem menos 6 anos do que eu, não se apercebia ainda do que se passava.

      O que lhes disse?
      Eu, forte, disse: "Ó pai eu quero ir por ti, mas não quero ir pela mãe". Então decidimos que eu vinha cá e no dia em que eu quisesse sair, bastava ligar ao meu pai que ele nesse mesmo dia ia buscar-me.

      Foi viver para onde?
      Vim para casa de uns tios para Pinheiro de Loures, porque na altura o Sporting não deixava que meninos tão pequenos ficassem no centro de estágio. Tinha de esperar dois anos para poder entrar no centro de estágio.

      ©João Figueiredo

      Como foi a primeira noite sozinho, sem o seu irmão e restante família?
      Duríssimo. Fui para casa desses meus tios, que tinham cerca de 70 anos. Mesmo à antiga: tinha que comer o que me punham na mesa, não tinha ninguém com quem brincar. Ao início, andaram uma ou duas semanas comigo, só para me dizer: é aqui que sais, é este o número do autocarro. Depois, tive que me virar. E com 10,11 anos, sair da aldeia e levar logo com isto tudo, esta confusão, foi difícil. Os meus pais tentavam vir o máximo de vezes que podiam, de 15 em 15 dias. Nas despedidas era terrível. Toda a gente a chorar. Lembro-me que nunca chorei à frente deles, mas quando eles saíam, era uma choradeira terrível. O meu irmão Nelo sempre a dizer: "Ó pai, estamos a abandonar o mano". Quando se saía de casa dos meus tios, havia uma subida e o meu irmão sempre virado para trás a esticar os braços na minha direção a chorar, e eu forte, ao olhar para aquilo tudo, a minha mãe a chorar. O meu pai, também forte como eu, mas depois era uma choradeira também. Cresci nisto, cresci forte.

      Alguma vez ligou para casa e pediu para o virem buscar?
      Tive muitas vezes vontade, mas só o fiz uma vez, com 13 anos, porque já não aguentava mais. Foram dois anos. O primeiro, passei em casa dos meus tios, e no segundo queria abandonar tudo, porque em casa dos meus tios não tinha ninguém para brincar e eles não eram pessoas que me levassem a comer um gelado ou a passear devido aos anos que já tinham. Agradeço-lhes por tudo, pelo favor, mas a idade não era apropriada para fazerem passeios comigo. No final desse ano apareceu o senhor Costa e a dona Bé, que são como uns segundos pais. Eles também têm raízes em Oliveira do Hospital. O senhor Costa sempre trabalhou para núcleos e disse-me: "vais para minha casa". No segundo ano, fui para casa do senhor Costa e foi totalmente diferente.

      Porquê?
      Têm um afilhado que tem mais 3 ou 4 anos do que eu, o Bruno Madeira, que foi o meu grande parceiro, com quem brincava todos os dias. Ele hoje chama-me “Elifoot” porque eu só queria jogar “Elifoot”, o que agora é a Playstation. Esse segundo ano foi bom, sentia-me acarinhado. Depois, começou o terceiro ano. O meu irmão nunca aceitou que eu tivesse saído. Eu, que estudava em Telheiras, um dia em novembro pedi à professora para ir à casa de banho e liguei ao meu pai. Pedi para me vir buscar porque já não aguentava mais. Tentei sempre aguentar o máximo possível. Mas as vindas e idas dos meus pais eram muito dolorosas, sentia a minha família a sofrer. O meu filho vai fazer 11 anos, para mim é um bebé, e eu vim com essa idade, sozinho, para Lisboa. Liguei ao meu pai que, três horas depois, estava na escola para me levar.

      O que ele lhe disse?
      Perguntou-me :“É isto que queres filho, queres ir para ao pé de nós?”. Disse que sim e senti uma alegria tão grande que parece que tinha renascido. Foi uma sensação de alívio. Parece que estava enclausurado, nem sei explicar bem. No Sporting estavam a par do quanto me estava a custar e decidimos, entre todos, que eu iria fazer metade dessa época em Oliveira do Hospital; isto aconteceu em novembro, e no final dessa época, se estivesse com outra motivação, outra força, poderia voltar. O que acabou por não acontecer logo. Ainda estive mais um ano emprestado ao Oliveira do Hospital. Voltei com 15 anos e nessa altura já vinha preparado para o que queria.

      Conseguiu conciliar bem a escola no meio disso tudo?
      Consegui. Depois, fui eu que pedi ao meu pai para vir para baixo. Vim mais tranquilo, o meu irmão já aceitou, a minha mãe também.

      E aí sim vai viver para o Centro de Estágio do Sporting. Outra realidade.
      Sim, sim. Apesar de hoje em dia os meninos estarem num hotel de cinco estrelas e nós não. Mas só o convívio, o amor que havia entre nós. Eram 4 camas num quatro de 15, 20 m2. Fiz o contrato profissional com 16 anos.

      Foi nessa altura que começou a ganhar dinheiro?
      Foi.

      Lembra-se do valor do seu primeiro ordenado?
      Quando vim com 11 anos o Sporting ajudava a minha família com 20 contos (100€). O meu primeiro contrato profissional foi de 360 euros, tinha 16 anos.

      Recorda-se o que fez com esse dinheiro?
      Não, eu não mexia nele.

      Não havia nada que quisesse muito ter?
      Um telemóvel, porque toda a gente tinha. Eu vim de um lado social e de uma terra em que nós éramos felizes com uma bola. Roupa? Nem sabia o que era. Vim para aqui, para este lado social em que tinha colegas que já compravam brincos, relógios, e mais não sei o quê, mas isso foi-me passando ao lado. Tive uma gestora muito grande na minha vida, a minha mãe. Todo o dinheiro que recebia ela guardava-o. Dizia-lhe preciso disto e ela dava-me. Lembro-me de ir à Springfield comprar t-shirts e ficava todo feliz da vida por ter comprado uma coisinha (risos). A partir daí, quando fiz o primeiro contrato profissional, começo a treinar com a equipa sénior do Sporting, no tempo do Jozic. As pessoas do Sporting começam a dizer que vou ser mesmo uma aposta para a equipa principal.

      Saiu do centro de estágio nessa altura?
      Sim, com 17 anos. Estive dois anos no centro de estágio.

      Que brincadeiras e partidas faziam uns aos outros?
      Na primeira fase, em que cheguei a viver com o Simão, o Nuno Santos, para quem olhava com respeitinho, eles é que faziam partidas à gente. As nossas mães levavam bolachas para comermos à noite, porque quando passava a hora de jantar, acabou. Eles iam lá: “Ó miúdo, o que tens aí? Tens bolachas que eu sei, a tua mãe esteve cá este fim de semana. Abre lá isso” (risos).

      Depois fez o mesmo aos outros?
      (risos). Quando tinha 17 anos, e era dos mais velhos, também fazia. Mas o pior daquilo era quando queríamos ver televisão. Só havia uma televisão para todos e quando chegava um mais velho e dizia: “Ó miúdo está na tua hora”. Nós, caladinhos, íamos embora (risos). Depois, claro, também fazíamos isso aos outros.

      Fugas noturnas, não havia?
      Fizemos uma fuga e correu-nos tão mal, tão mal, tão mal...

      Conte lá.
      Tínhamos um amigo chamado António que nos disse: “Pá, vamos a uma discoteca que abriu agora e é espetacular”. Era a minha primeira saída, estava nervoso. Tínhamos de sair antes da meia noite, que era quando a porta fechava, depois só abria às 7 da manhã. A tal discoteca ficava para os lados da Avenida da Liberdade, não sei o nome. Saímos todos contentes, contentes e com medo que alguém reparasse em nós, porque éramos um grupo de oito ou nove. Chegávamos a uma rua e o António dizia “chegámos”, mas afinal “ah, não é aqui”. Ou seja, ele não sabia, quis armar-se, dizia que sabia tudo mas não sabia nada. Até que chegamos a uma esquina e ele “É esta, é esta”. Eu tive logo um daqueles feelings...Vejo um senhor à frente, todo muito bem vestido a olhar para uma cambada de miúdos, com 15, 16 anos com ar desconfiado. O António diz que queremos entrar. O senhor vira-se: “vocês sabem para onde vão entrar?”. O António mais uma vez, na tanga, a armar-se “sei, eu frequento isto”. Eu como sou muito cauteloso, sou dos últimos a entrar. Lembro-me de estar eu e o Paulo Ribeiro, um moço do Porto, mais recuados. Entramos na primeira porta, depois vamos para um hall e nesse hall havia uma porta blindada lá para dentro. Só que nesse hall vejo umas pessoas e digo assim: “Eh pá, acho que isto é um bar de gays”. O homem que está no hall da entrada faz entrar os primeiros, eu e o Paulo Ribeiro quando estamos para entrar vejo logo dois tipos a dar beijos um ao outro, virei-me para o Paulo e disse-lhe que ia embora. Fiquei assustado, entrei em stress. O senhor ia a fechar a porta, eu ponho a mão na porta e o homem“ai não querem?”. “Não, não, esperamos lá fora” (risos). E ficamos lá fora. Eles depois saíram, disseram que foram obrigados a consumir bebida e só depois é que saíram. Foi a minha primeira saída (risos).

      Estava a contar que estava nos juniores nessa altura e começa a treinar com a equipa sénior. A primeira vez que é chamado à equipa sénior, como foi?
      Estava com um nervoso maluco, quase não podia olhar para a cara deles. Oceano, Pedro Barbosa…

      Houve praxe?
      Não, nessa altura eles só nos mandavam ir buscar os cestos da roupa. E uma pessoa ia toda contente, mas nem sequer falava para eles (risos). Lembro-me de, com 17 anos, querer fazer um banho de imersão como todos faziam e ia entrar no jacuzzi, estava lá o Pedro Barbosa, o João Pinto e disseram: “Ó miúdo onde é que tu vais? Não tens idade para fazer isto, sai já daqui” (risos). E lá fui eu, caladinho, a olhar para baixo. Eu a pensar que já tinha direito a massagens e jacuzzi (risos).

      ©Catarina Morais

      Quando sai do centro de estágio fica a viver sozinho?
      Os meus pais decidem que é melhor fazer um acompanhamento, porque as pessoas estavam a depositar confiança em mim e a minha mãe veio viver comigo. Fomos viver para um apartamento pago pelo Sporting, no Alto da Faia. Estive lá com ela um ano.

      Era muito controlado pela sua mãe?
      Era, mas ainda bem. Também nunca fui muito de saídas à noite para discotecas. Hoje em dia gosto mais de estar num restaurante do que sair para discotecas. Sempre tive medo das coisas na noite. Pode acontecer em qualquer lado e em qualquer altura, mas há sítios mais propícios do que outros, e eu sempre tive na minha cabeça que para ser jogador, ou tentar ser jogador, temos de nos privar de certas coisas. Eu privava-me mas não ficava triste, fazia porque queria.

      Estreou-se na I Divisão com 18 anos pela mão do Inácio, certo?
      Sim. Num jogo com o Alverca. Empatámos um igual.

      Foi titular ou substituiu um colega?
      Entrei. Estávamos a ser massacrados e o Inácio mandou-me para o fogo, literalmente. Estávamos a ser assobiados. Eu estava muito nervoso. Hoje um miúdo com 16, 17 anos é preparado para chegar a esses momentos com outra maturidade. Na altura, lembro-me que estávamos a ganhar e estávamos a ser assobiados, e eu só pedia na minha cabeça "que não me ponha neste jogo". Estava completamente nervoso. Quando um miúdo entra, podia ser eu ou podia ser outro, se a equipa não ajuda, se alguma coisa de mal acontece, foi o que aconteceu, empatámos o jogo em casa contra o Alverca, a culpa é do miúdo. O miúdo entrou, o que é que foi para lá fazer, isto e aquilo...

      Lembra-se de ouvir isso de alguém?
      Não, mas foi o que saiu na imprensa. Recordo terem dito que não tinha capacidade para jogar na equipa A. Mas aos olhos de hoje, os miúdos entram, e entram preparados. Quando o Inácio chegou ao pé de mim, fechou-me no gabinete dele e disse: “miúdo estás preparado para jogar contra o Real Madrid, na Liga dos Campeões?”. Eu quase que engoli em seco, mas claro que disse que sim. Não havia preparação nenhuma. Hoje é diferente, fala-se diariamente com os jogadores, há apoio psicológico, etc. Naquela altura ninguém falava nada, era ir lá treinar, tens qualidade vai ao jogo e acabou. Para um miúdo vingar... era preciso uma grande percentagem de sorte, de estar no momento certo, à hora certa, com a pessoa certa. Para vingar e ser mais fácil a sua projeção, a equipa tem de estar bem, tem de transpirar confiança. Coisa que não existiu na minha altura. O Inácio, por exemplo, nunca mais me pôs a jogar. Claro que se tivéssemos ganho e se tivéssemos jogado bem, provavelmente era chamado novamente.

      Jogou bem?
      Não, ninguém jogou. Vai um miúdo com 18 anos no meio daqueles tubarões fazer o quê? Não sou nenhum Maradona, não sou nenhum Cristiano Ronaldo.

      Entretanto, é emprestado ao Campomaiorense.
      Vou ao Torneio de Toulon e estou a falar com um jornalista que me diz que está em off e eu digo-lhe que fui prejudicado pelo Sporting, que me sentia injustiçado, que nunca mais me chamaram à equipa sénior por causa daquele jogo e que as pessoas não se portaram bem comigo; prometiam uma coisa e depois não faziam. Por um lado tenho culpa, por ter falado muito, por não ter experiência, que hoje os miúdos já têm porque há alguém por trás a dizer: “não fales, está calado, deixa-me falar a mim”. Isso é muito importante e eu não tive esse acompanhamento. Saiu no Record uma página completa a dizer: “Fui prejudicado pelo Sporting”. Aquilo caiu como um bomba. Disseram-me que tinha de ser emprestado porque o Sporting estava triste comigo, porque era uma entrevista forte.

      Quando lhe disseram que ia para o Campomaiorense, qual foi a sua reação?
      Eu próprio também quis ir porque, se não me engano, na época anterior o Campomaiorense tinha estado na primeira divisão. Era o meu último ano de júnior, ou o primeiro de sénior, e tinha a possibilidade de jogar. Portanto, juntaram-se as duas coisas. Agora, fiquei triste por me ter estreado no Sporting, as pessoas estarem a pensar que viam em mim alguma coisa e depois, de um momento para o outro, ter ido parar ao Campomaiorense. Mas é assim a vida.

      Foi para Campo Maior sozinho?
      Fui com outros colegas, fomos uns 5. Eu fiquei a viver com um colega, o Vasco.

      Como correu essa época?
      Em termos desportivos foi bom, porque joguei, marquei e fiz muitas assistências.

      Era Diamantino o treinador.
      Sim. Depois veio um espanhol, Fabio Gonzalez que... meu Deus...

      Então?
      Maluco. No primeiro treino da semana metia-nos a jogar futebol. Em termos táticos, tinha umas táticas que não eram comuns. Foi difícil porque veio substituir o Diamantino quando estávamos em 2º lugar; a partir daí foi sempre a descer. Quando estamos a descer todos os problemas vêm ao de cima. A mim acusavam-me que só jogava bem na seleção, que não queria jogar no Campomaiorense porque era jogador do Sporting. Isso acaba por acontecer com qualquer jogador que vai de uma equipa para outra e as coisas correm mal: “Ele tem contrato com os outros, quer lá saber disto”. Lembro-me do Paulo Vida, um jogador fantástico, um ponta de lança que fazia golos a todos de todas as formas e feitios, também o acusaram de não querer marcar golos porque estava lixado, bom... Foi o ano que também ficou na história porque o clube acabou. Não foi positivo em termos de clube.

      ©João Figueiredo

      Regressa para a equipa B do Sporting?
      Sim.

      Ficou chateado por não ir para a equipa principal?
      Não. Eu fiz uma boa época em Campo Maior. As pessoas diziam: “Eh pá tu és maluco, mas és grande jogador”.

      Porque é que diziam que era maluco?
      Se calhar porque eu falava as coisas. Nunca fui de me calar e no futebol há que saber calar, mas nunca faltei, nunca mandei um treinador para o outro lado.

      Era um refilão.
      Isso sim. Era refilão e admito que muitas vezes devia ter estado calado. Eu adorava ganhar, ficava doido se perdia. Isso sempre me caracterizou e é uma coisa que levo com agrado. Sempre dei tudo e por vezes as pessoas interpretavam mal ou eu esticava mais um bocado, mas a minha essência é aquela que os meus pais me ensinaram, sempre a respeitar todos.

      Depois é chamado pelo Bölöni à equipa principal. O que achou dele?
      Muito severo, um bom treinador, penso que fez um bom trabalho, mas rotulou-me logo na primeira conversa. Disse-me: “eu sei que tu és maluco, és um grande jogador, mas à mínima coisa que faças aqui comigo, vais-te embora.” Foi assim, nunca ninguém me deu nada. Há aqueles jogadores que caem na graça de Deus, sei lá, mas nunca tive essa hipótese, nem essa sorte. Nunca ninguém me disse: “Eh pá, calma. Ele fez isto, mas vamos perdoá-lo", ou seja o que for, nunca. O João Pinto lesiona-se no ombro, penso eu, e faço 6 ou 7 jogos seguidos. Penso que é assim. Ganhei alguns créditos, as pessoas começaram a acreditar mais em mim. Mas de repente, o Bölöni vira-se e diz: “Tu tens um problema, não podes ser jogador do Sporting assim”. Do nada.

      Por causa do feitio?
      Não. Volta e meia estava num jogo ou no treino e saltava-me o ombro, tanto que fui operado. O Bölöni do nada chega-se: “Tu não podes ser jogador do Sporting com esse problema, tens de tratar.” Respondi-lhe: “Não vou ser tratado agora porque consigo jogar. Tento evitar alguns movimentos que me fazem saltar o ombro”. Mas ele já não me queria mais, dizia que eu não estava apto para ser profissional do Sporting. É então que me aparece a Académica, que estava na 1ª divisão. O treinador era o Artur Jorge que me quis logo lá.

      Que tal o Artur Jorge?
      Espetacular, dava-me muita atenção e ensinava-me, tinha paciência, porque para jovens é preciso ter paciência. Temos de ver a essência do jovem primeiro. Se for uma essência maldosa, há que apertá-lo de maneira diferente. Se for uma essência boa, mas de sangue quente, é preciso perceber. Hoje em dia todos os que querem ser treinadores são, mas só quem tem uma relação humana com os jogadores é que vai longe. Não são aqueles que estudam e depois tratam mal os jogadores. Sei que estive lá dois meses e recebi um telefonema do Sporting a dizer para regressar mais cedo, para ser operado, para começar bem a época seguinte.

      Já com o Fernando Santos.
      Espetacular também. Aliás todos eles, todos eles.

      Não houve um treinador que o tenha marcado mais?
      Em termos pessoais o José Peseiro, sem dúvida. A minha melhor fase no Sporting é com ele. Deu-me total liberdade para jogar, cometi alguns erros,mas ele nunca foi tão duro. Aí sim, se tenho de destacar alguém é o Peseiro. Acho que é bom demais para ser treinador ao nível de um clube grande. O que quero dizer com isto é que há pessoas e há jogadores que tendem a abusar quando encontram uma pessoa que é boa. Ele é nosso patrão, é o nosso treinador. E naquelas alturas em que devia ser rígido nunca o era, porque era a essência dele. Levava sempre as coisas a conversar, encontrava sempre um ponto ou outro para que tudo ficasse calmo. E na alta competição às vezes a coisa não pode ser assim.

      Pela negativa, houve também algum que o tenha marcado?
      Pela negativa, mas sem ter nada contra ele porque não sou rancoroso, o Jorge Jesus. Mas mais à frente falamos disso.

      Como lhe corre a época com o Fernando Santos?
      Mais ou menos. É preciso não esquecer que eu tinha o João Pinto na minha posição. Por mais que fizesse tinha aqueles tubarões todos ali e eu era sempre um menino. Totalmente diferente da visão de hoje em dia. Hoje, um puto joga com 18 anos e ninguém acha anormal. Naquela altura jogar com esta idade no meio destes tubarões…(risos).

      Depois, vem o Peseiro e no ano a seguir o Paulo Bento. É a primeira vez que tem um treinador que foi seu colega de balneário. É uma situação complicada?
      Não, não foi difícil. Quando o Paulo assumiu a equipa disse logo: “Para aquelas pessoas que já trabalharam comigo e foram meus colegas não quero que me tratem por mister”. Para ele não fazia sentido. Sabíamos diferenciar as coisas.

      Mas as coisas não correm bem com o Paulo Bento.
      Não. É ele que dita a minha saída.

       

      ©Carlos Alberto Costa

      O que aconteceu?
      O Paulo Bento fica marcado com a minha saída do Sporting única e exclusivamente por ser o treinador nessa altura, mas nada tem a ver com ele. Tem a ver com as minhas lesões na perna direita, que eram constantes, sempre na mesma perna. Nesse período pedi para ser observado por outro médico. Fui ao médico do Bayern de Munique e da seleção alemã, o Müller [Hans-Wilhelm Müller-Wohlfahrt]. Ele manda-me fazer um exame que nunca ninguém se tinha lembrado: um raio-x às costas. E o meu problema estava no ilíaco, tinha uma perna mais curta do que a outro e daí as minhas lesões serem sempre na perna direita.

      Qual era a solução?
      O Dr. Müller disse-me que para ficar curado tinha de fazer no mínimo três tratamentos. Só eu sei que tratamentos eram… Com agulhas enormes a perfurar-me as costas e a perna por dentro, para ir às fibroses e descalcificar as fibroses. Era já tanta fibrose que eu tinha que, claro, ninguém podia jogar como eu estava. O departamento clínico do Sporting, não o Paulo Bento, desde o primeiro dia nunca foi de acordo que eu fosse lá. Hoje isto também já está mudado, mas antigamente, meu Deus. Antigamente fazia-se mas tinha de ser às escondidas, ninguém podia pedir uma autorização ao clube. Eu pedi.

      O departamento médico não quis que fizesse o tratamento?
      O departamento clínico disse que eu estava hipocondríaco, que era da minha cabeça, que eu estava maluco por dizer que tinha coisas na perna. Inclusivé o médico, o Gomes Pereira, não quero falar muito desse senhor, ele nunca mexia muito nos jogadores, mas a única vez que me mexeu na perna, esteve 15 segundos e disse que eu não tinha nada. Eu tinha a perna cheia de fibroses calcificadas, isso via-se na ressonância, enfim. Compreensivelmente eu não aceitei bem a decisão do departamento clinino do Sporting. O Paulo Bento teve de se pôr ao lado da direção e do departamento clínico. E diz-me: "Carlos se tu lá vais mais alguma vez ao estrangeiro, não jogas mais comigo.” Fiquei chateado por ele me estar a dizer aquilo e respondi: “Olha Paulo, não me interessa que não jogue mais. Eu quero é tratar da minha saúde. Preciso de lá ir mais uma vez, fica ao teu critério se me pões ou não a jogar”.

      E foi?
      Fui lá mais uma vez. Tudo pago do meu bolso. Graças a Deus que fui. Fui tratado e fiquei bem. E é aí que se rompe a ligação que tenho com o Sporting e com o Paulo Bento. Sei que estive dois meses sem jogar e sei que o Paulo também é uma pessoa convincente: aquilo que diz, faz. Achava ele que estava a defender o departamento clínico, que dizia mais uma vez que eu era maluco, que eram as noitadas, que era droga, o que não disseram de mim. E eu quando ia à Alemanha, ia com o Carlos Gonçalves, que era o meu empresário na altura. Só eu sei os tratamentos que me fizeram lá, mas sabia que aquilo era para o meu futuro. A dois meses de acabar a época, fui lá uma última vez e tive uma conversa com o Paulo. Disse-lhe que já estava bem, mas ele disse-me que já tínhamos falado sobre o assunto. Respeito. Mas foi muito doloroso ter saído do Sporting assim.

      Quando falavam que eram noitadas, droga...
      ...Senti uma revolta muito grande. Mas sempre cresci assim. Se chegar ao pé de alguém do Sporting, que se lembre de mim naquela altura, e perguntar pelo meu percurso, vão dizer: “Eh pá, o Carlos, grande jogador mas cheio de lesões, era só noites, era só mulheres, era não sei o quê”...

      Era mentira?
      Claro que sim, eu comecei a namorar com a minha mulher tinha 22 anos, antes tinha uma namorada, sempre fui uma pessoa pacata, fiz as minhas coisinhas, mas sempre muito responsável. Isso foi uma imagem que se criou e tive de levar com isso até sair do Sporting. Quando fui para o Benfica a visão que tinham de mim mudou um bocado, mas no Sporting sempre foi assim. Um talento imenso, mas tinha muitas lesões porque a vida não era compatível.

      Era o seu clube de coração, o clube onde cresceu e onde se tornou profissional.
      Quando fui fazer a desvinculação, chorava que nem um bebé e o Carlos Freitas também. Custou-me horrores sair do Sporting, mas foi por causa disso. Eu não abandonei o Sporting, o Sporting é que quis que eu saísse. Porque o Paulo ia continuar, ele já não me queria lá porque tinha dito aquilo, que eu tinha infringido uma regra dele. Tinha-me dito cara a cara. Assumi a minha decisão em prol da minha saúde.

      Porque é que na altura não tornou isso público? Porque não se quis defender?
      Porque fui aconselhado a não falar.

      Pelo seu empresário?
      Também.

      Vai para o Recreativo do Huelva. Não houve interesse de outros clubes, do Espanhol de Barcelona, do AEK, do Panathinaikos?
      E do Benfica, já na altura. Eu tive contrato ainda era jogador do Sporting. Na altura foi público e dizia-se que estava em conflito com o Paulo Bento. Mas as pessoas não sabiam que o que gerou o meu conflito com o Paulo não foi por não jogar ou por ter sido mal criado, mas sim por uma declaração do posto médico. Na altura, o meu empresário reuniu-se comigo e com o Fernando Santos em casa do Veiga. Vimos qual era a melhor maneira de eu sair do Sporting e ir para o Benfica, discutimos isso. Achamos por bem que tinha sempre de fazer uma ponte fora, nunca podia sair diretamente para o Benfica, porque o Sporting nunca deixaria um jogador ir diretamente. Apareceu o Recreativo do Huelva porque o Beto estava lá. Eu tinha sido companheiro do Beto, ele ligou-me: “Vem para aqui, é um clube da primeira liga, estamos perto de Portugal”. Sempre rejeitei muita coisa por não querer estar longe, não tinha aquela coisa de ir à aventura por muitos países. Em Huelva podia vir de carro a Portugal, não gosto muito de andar de avião. Era um clube que ia apostar mesmo em mim, iam formar equipa à minha volta e foram estas condicionantes que me fizeram optar por Espanha

      Parte II

      Antes de continuarmos com o futebol, quando deixa os estudos?
      No 10º ano quando faço contrato profissional e já tenho as seleções a sério. Lembro-me de frequentar o 10.º ano por duas vezes e chumbar por faltas. Já ganhava bem, as pessoas estavam a apostar em mim, foquei-me exclusivamente no futebol.

      Quando é chamado pela primeira vez a uma seleção?
      Logo nos sub-15. Fiz todas as seleções. Sub-15, sub-16, sub-17, sub-19, sub-20, sub-21, olímpica e seleção A.

      Era também um sonho.
      Sempre foi um sonho. Tenho 17 internacionalizações, não fui ao Europeu para que estava convocado devido ao problema do meu filho, não estava em condições e pedi ao Paulo para sair, depois posso contar a história. Sou chamado à seleção A quando estava no Huelva, com 26 anos, era Scolari o selecionador.

      Adaptou-se bem ao Recreativo de Huelva e aos espanhóis?
      Amei jogar em Espanha, adaptei-me bem ao campeonato espanhol. Os estádios sempre cheios. Mesmo um jogo pequeno tinha 25 mil pessoas a assistir. Sempre com muitas câmaras de televisão à volta o que torna a coisa mais estimulante para o jogador. As coisas correram-me de feição, fiz 7 ou 9 golos, sendo médio, e não sei quantas assistências. É quando recebo a chamada do Rui Costa a dizer que quer que o vá substituir. Foi em Huelva, ainda.

      O que ele lhe diz em concreto?
      Reconheci logo a voz. "Foge, não estou a acreditar, o Rui". Sempre foi um ídolo para mim, ele e o Zidane. O Rui ainda jogava, aposentou-se nessa época. “Estamos a seguir-te, já sei que houve contactos na época transata mas não foi possível. Quero que sejas meu jogador, que me venhas substituir. És uma pessoa que se enquadra no meu perfil”. Nunca imaginei jogar no Benfica. Estive vários anos ligado ao Sporting e sempre disse à minha mulher: "Nunca hei de jogar no Benfica, tudo menos o Benfica". Uma pessoa cresceu a jogar contra, era o rival, queria partir as portas quando lá ia, essas coisinhas que se incutem. A minha mulher dizia: “Ainda vais jogar no Benfica”. (risos). Mas nem ela imaginava também.

      Como conheceu a sua mulher?
      Conheci a Mónica numa discoteca, em Lisboa. Ela não me quis dar muita bola lá dentro (risos). Mas acabamos por conversar à saída da discoteca e aí ganhámos logo uma afinidade grande, até ao dia de hoje.

      Ela era viúva de um ex-jogador de futebol não era?
      Sim, mas eu não sabia. Aliás, sempre disse que se soubesse que era ex-mulher ou mulher de um colega de profissão nunca tinha olhado para ela nunca tentava meter-me com ela, jamais. Só soube depois com quem tinha sido casada e que tinha uma filha, a Bruna, que na altura tinha 4 anos e hoje tem 19. Mas foi uma coisa... Nunca mais nos largámos. Passado 3 meses estávamos a viver juntos. Acompanhou-me para todo o lado.

      Foi consigo para Huelva?
      Foi.

      Assina por 4 anos com o Recreativo de Huelva mas só fica uma época.
      Sim. Eu não queria o Recreativo por mais que merecesse e merece toda a consideração. Aquilo era curto para mim. A seguir tinha o Valência que me queria, tinha vários clubes, em Espanha. Só que quando o Rui me liga, aquele ícone, a dizer que me quer… Tinha o FCP, podia ir para o Porto também. O que me trouxe ao Benfica foi o Rui Costa, ponto final. Era um ídolo e imaginar que estava a falar com o Rui, andava doido de contente. Por outro lado, preferia vir para Lisboa, para a nossa base, do que ir para o Porto.

      ©Carlos Alberto Costa

      Quando vem para o Benfica os adeptos estavam desconfiados, como é que foi a entrada no Benfica?
      Em termos pessoais não foi fácil, parece que estava anestesiado. Estava habituado a ver verde desde sempre e de um momento para o outro começo a ver tudo vermelho. Lembro-me que referia-me ao Seixal como a Academia e o Nuno Gomes passava-se com isso (risos). “Academia é dos outros, dos verdes, pá. Aqui é o Seixal”. Mas eu dizia aquilo porque me saía espontaneamente. Ao início foi muito complicado, eu tinha comprado uma casa na Atalaia para estar perto da Academia e depois sair de lá para ir para o Seixal.... A vida que estava habituado a fazer durante alguns anos estava a fazer ao contrário. O lado profissional foi espetacular. As pessoas pensaram o mesmo que pensavam todas, bom jogador, mas é maluco, vamos ver o que é que ele dá aqui.

      Essa imagem nunca descolou de si, a do gajo maluco.
      Nunca. Mas eu tinha períodos bons que não me importava, sabe porquê? Porque naqueles jogos da garra, em que é preciso lá deixar tudo dentro, essas pessoas que me chamavam maluco, o maluco era isso, era que toda a gente devia ser como ele. Há 2 fases do maluco. Há aquelas pessoas que querem denegrir e o maluco é noites, é mulheres, tudo e mais alguma coisa que não seja compatível com o futebol. E há o maluco da garra, de ir a cada lance para ser o melhor, etc, e esse maluco eu não me importo que me chamem. Ainda hoje me dizem, tomáramos nós que fossem 11 como tu. Mas ao início eu senti que havia ali... "É do Sporting, vamos ver". Posso dizer que tenho muito gosto, muito gosto mesmo em ter jogado no Benfica. Fui campeão pelo Benfica, ganhei alguns troféus pelo Benfica e fui muito acarinhado até hoje.

      Nunca ouviu nada que lhe tivesse caído menos bem?
      A seguir ao lance do Estoril, em que fui expulso, há muitos que dizem que eu é que sou o culpado do Benfica ter perdido o campeonato. Aí custou-me porque toda a gente começou a tratar-me mal: "És lagarto, sempre foste lagarto, estás aqui a enganar, perdemos o campeonato por tua causa". Não merecia ter ouvido isso. Por tudo o que fiz pelo Benfica, por toda a entrega que dei. Sempre quis ganhar pelo Benfica, mesmo contra o Sporting.

      Lembra-se do 1º jogo contra o Sporting, já com a camisola do Benfica?
      Não. Lembro-me de ter conquistado a Taça contra o Sporting e de ter marcado o penálti que deu essa Taça.

      Mas custou-lhe mudar de clube.
      Custou. Nos primeiros jogos tudo me fazia confusão. Ir ao estádio do lado rival, estar a jogar no Benfica contra o clube que me formou, onde me tornei homem e de que gosto, tudo isso, mas depois de entrar esquecia tudo. E tem de ser mesmo assim, somos profissionais. Sempre quis ganhar pelo Benfica e festejava. É a minha profissão, são os meus colegas, é a instituição que me paga. Hoje em dia já se lida melhor com isto. Lembro-me de ter festejado muito esse golo porque era o primeiro troféu que ia ganhar pelo Benfica e porque sou uma pessoa emotiva e não consigo esconder as coisas. Lá está, se calhar o maluco é isso. "Eh pá, esteve não sei quantos anos no Sporting e foi festejar assim". Saiu-me, estava feliz, queria festejar.

      Quando nasce o seu primeiro filho, o Gustavo?
      Aos 26 anos. Foi feito em Huelva, mas nasce quando já estou no Benfica.

      Assistiu ao parto?
      Não. Tive medo. Eu não gosto de ver sangue e o médico, que foi sempre o mesmo a fazer os partos à Mónica, começou a meter-me medo. "Olhe que eu já tive muitos episódios em que em vez de estar a tirar o bebé estava a acudir o pai". Mas depois assisti ao do Martim e ao da Maria Inês. Do da Maria Inês tenho uma história muito gira.

      Conte.
      Era o 3.º que ia ter, a afinidade com o médico já era grande. Levei máquina, câmara de filmar, telemóvel, ia todo equipado. E disse-lhe: "Ó Dr. quando estiver pronto você diz-me que eu vou gravar, vamos fazer aqui um plano do caraças". Pego no telemóvel e começo a gravar a barriga (a Mónica fez sempre cesarianas), via tudo, ia aos pormenores, aproximava. O Dr. a rir-se, a fazer as coisinhas dele, foram 4 ou 5 minutos daquilo. Ele todo contente: "Ó Carlos mostre-me lá essa gravação". Não é que me esqueci de carregar no rec para gravar? (risos) O médico quase que me batia, senti na cara dele uma deceção (risos). Até hoje ando com isto, como é que fui esquecer de carregar no Rec. Tinha feito uma gravação linda, com pormenores e tudo (risos).

      E afinal foi duro, não caiu para o lado.
      Não e se soubesse que o do Gustavo era assim... Aquele momento é tão lindo que só estás concentrado que saia o bebé, não ligas a sangue e a mais nada.

      ©Carlos Alberto Costa

      Quando entrou no Benfica o treinador era o Quique Flores. Gostou dele?
      Boa gente também. Bom treinador, com ideias novas. Na minha opinião tinha uma pessoa ao lado, o preparador físico, Pako Ayestarán, que quis mandar mais do que ele. Gabava-se muito de que foi campeão europeu pelo Liverpool e não sei quê, é esse tipo de pessoa. Incompatibilizou-se com certos jogadores. Não o Quique, mas essa pessoa.

      Época seguinte, Jorge Jesus. Como foi o primeiro impacto?
      Gostei muito do Jorge Jesus. Aliás é o meu treinador de eleição em termos de futebol.

      Foi com ele que aprendeu mais?
      Foi. Eu e todos. Quase que falo por todos.

      Por que diz isso?
      Porque é o maior. Porque é o melhor. Eu não sou bom a descrever pessoas, mas vamos lá a ver se consigo...Para já a forma como ele falava. É um bocado como a minha, às vezes manda umas calinadas e tal, é muito espontâneo, diz as coisas que lhe vão na alma e às vezes não é aquilo que quer dizer, um bocado como eu também. Mas a mensagem passava para o jogador. O jogador prefere que falem assim, não prefere frases elaboradas não sei do quê. O futebol é prático, temos de ser práticos. Ninguém vai inventar nada, aqui o que interessa é passar a mensagem.

      Alguns colegas seus dizem que ele era muito minucioso.
      Sim, e chato. Muito chato, muito chato. Aquelas palestras eram quase uma hora e meia, por exemplo. Queria passar tanta informação que se estendia no tempo e os jogadores já estavam quase de boca aberta. Era um bocado saturante nisto. Mas em termos de treinador de campo, era uma pessoa que estudava o adversário de trás para a frente, de frente para trás e passava bem a mensagem. Ele fica marcado na minha carreira por outras situações, mas se tenho de dizer alguém com quem aprendi mais, é ele. Aprendi com todos, e esta não é uma frase pré-fabricada, é mesmo assim, aprendi com todos, mesmo estando menos bem uma pessoa aprende sempre. Mas com aquele homem, aprendemos à séria. O Aimar há um tempo deu uma entrevista e disse que dos treinadores que mais o marcaram o Jorge Jesus estava no top 3 dele. E estamos a falar no Aimar que lidou com muitos treinadores top. De facto o homem sabe. Só que depois tem o outro lado.

      Que outro lado?
      Relações humanas.

      Não é bom?
      Podia ser melhor. Não estou a dizer que não é bom. Podia ser melhor. Dado aos jogadores que treina, as equipas grandes que treina, ao convívio que tem entre treinadores, acho que devia aprimorar mais. Devia ter outra sensibilidade. Mas como ele é tão bom naquilo que faz dentro de campo, aquilo que deve mudar ele não dá tanta relevância.

      Está a querer dizer que o que falta a Jorge Jesus é aquilo que é elogiado no José Mourinho, a capacidade de lidar com o balneário a nível psicológico?
      Por exemplo. Eu vejo o Bruno Lage. Aquele rapaz que se vê ali na televisão é boa pessoa. O treinador tem de ir ao encontro dos jogadores. Eu tenho essa visão. É mais fácil mudar perante 25 jogadores do que 25 jogadores de 7 ou 8 nacionalidades diferentes moldarem-se ao treinador. É isto que era o lado menos bom dele, hoje não sei porque já não estou há uns anos com ele. O lado menos bom dele é o lado do contacto direto com os jogadores, o lado mais social. Estes rapazes que estão agora a aparecer já têm outra bagagem nesse sentido. É como os jogadores, no meu tempo eram trabalhados de uma maneira e hoje de outra.

      Mas então como surge o conflito com o JJ depois do jogo como Estoril?
      Foi no treino a seguir ao jogo com o Estoril, em que empatámos. Estávamos a duas jornadas do fim. Sou expulso. O primeiro cartão amarelo é por falar ao árbitro e o 2.º cartão por causa de uma entrada a meio campo, a 8 minutos do fim. As pessoas e a imprensa, que manda muito pela forma como a notícia é direcionada, culparam-me por o Benfica não ter ganho o jogo e ter perdido o campeonato, quando na realidade fomos perder o campeonato no Dragão, num jogo em que não joguei porque estava suspenso. Recordo-me que no treino após o jogo, o JJ marca uma reunião normal de grupo, em que o único visado sou eu. Disse que eu já não jogo mais enquanto ele lá estiver, que estava riscado. Fez o sinal de cruz com a mão e disse: "puseste em causa todo um ano de trabalho".

      Qual foi a sua reação?
      Fiquei parvo a olhar para aquilo, a ouvir. Só pensava: "Eu não estou a acreditar que este homem me está a dizer isto". Ele culpou-me mesmo por aquilo ter acontecido, quando estávamos em 1º lugar ainda. Eu que reajo a tudo fiquei parvo. Lembro-me de ter chegado a casa e de escrever tudo o que ele me disse numa agenda. No outro dia a minha preocupação foi falar com os capitães. Chamei o Aimar, o Maxi Pereira, o Luisão e o Tacuara (Oscar Cardoso) se não me engano. Perguntei-lhes se eles se reviam naquilo que o treinador me tinha dito e todos me disseram que não. "Eh pá, já sabes como é que ele é. Foi um erro? Foi, mas estamos em 1º lugar, falta um jogo, todos nós cometemos erros". Lembro-me de o Luisão ter dado um soco quando fomos ao árbitro, num jogo na Alemanha, portanto, teve um episódio como outros também tiveram episódios menos bons. Todos nós temos de assumir o nosso erro, mas longe dizer que estavas morto e que já não jogas mais no Benfica como ele fez. Eu nesse ano tinha renovado por mais 3 anos. Era jogador da seleção nacional. E ele diz-me aquilo tudo. Mas ali o que contou mais para mim foram os colegas, foi eu perceber se realmente se reviam no que ele disse. Isso é o que me importava mais em termos emocionais, porque foi muito duro. Só eu sei o que eu passei. Ainda hoje alguém passa e diz-me na brincadeira, mas eu respondo logo: "Tu foste perder o campeonato ao Dragão, não foi no Estoril". E não reagi também na altura porque nós a seguir vamos ter a final da Taça UEFA contra o Chelsea e para não estar a criar mais uma situação em que dissessem o Carlos Martins isto e aquilo, calei-me e não disse nada. Recordo-me que fomos à final da Taça de Portugal, perdemos e acontece aquele episódio com o Tacuara no final do jogo em que ele e o Jorge Jesus empurraram-se e o Tacuara queria bater-lhe. Depois disso tudo é que lhe bati à porta.

      ©Catarina Morais

      O que lhe disse?
      "Quero falar contigo" e falei. Disse-lhe que não me revia no que ele me tinha dito, expliquei-lhe tudo e mais alguma coisa, o que eu sentia, mas não quero passar a conversa para aqui. Sai de lá de consciência limpa e aliviado.

      O que ele lhe respondeu?
      "É a tua opinião, mas sou eu que mando. Tu tens as tuas opiniões, eu tenho as minhas." Foi nessa base. E com razão. Ele tem a opinião dele e eu tenho a minha, por isso é que somos todos diferentes. Na época seguinte já sabia que não ia ficar. Antes de irem para a Suíça, fui chamado para me dizerem que ia fazer parte da equipa B, do Benfica. Aí caiu-me tudo. Eu já sabia porque ele me tinha dito, mas daí a viver o momento de ir para a equipa B, desiludi-me completamente com o futebol. Por isso é que dei as minhas coisas todas às pessoas que me iam pedindo. Hoje não tenho uma camisola, umas chuteiras, um equipamento do Benfica, não é pela instituição, atenção, a instituição nada tem a ver. Gostei muito e sou um privilegiado por ter lá jogado. Mas tenho pena de já não ter essas coisas, estou muito arrependido porque os meus filhos agora perguntam por elas. Eu tenho tudo na minha memória, mas para passar para os meus meninos não tenho. Eles pedem-me camisolas, a da final da Taça UEFA, "a camisola com que foste campeão pai? As botas, pai?", etc. Não tenho. É que a partir daí já só joguei por causa da minha família, especialmente por causa do meu Gustavo, porque se não tinha abandonado logo tudo na altura.

      Chegou a jogar na equipa B.
      Cheguei porque fui obrigado. Mas apanhei um grande amigo, o Hélder Cristóvão, graças a Deus que foi ele, foi antigo jogador e não me complicou a vida, porque eu estava a explodir. Eu era uma bomba atómica, a qualquer momento explodia com tudo. Eu via os meus colegas lá em cima e eu privado daquilo, no meio de meninos com 17 anos que nem falavam para mim com vergonha. Se estivessem a rir numa sala e eu entrasse paravam todos de rir, até era constrangedor para mim. Eu só pensava: "O que é que eu estou aqui a fazer?".

      Começou à procura de clube?
      Não. Rejeitei tudo, porque o meu filho não devia sair de Lisboa.

      Deu aí um salto na história, porque a doença do seu filho é descoberta quando está em Granada, no seu 3-º ano de Benfica, na época 2011/2012.
      Sim, no 3º ano de Benfica saio, peço para ser emprestado ao Granada porque havia o Europeu, em que o selecionador era o Paulo Bento. Uma curiosidade engraçada porque eu tive aquela divergência com o Paulo, mas é ele que me chama à seleção para o Europeu. A minha melhor fase na seleção é com o Paulo Bento precisamente, é preciso que se diga. Então, peço para ser emprestado para jogar, para fazer 40 jogos num ano, para estar bem para o Europeu. Porque no Benfica, com o Aimar, jogávamos metade, metade, e eu queria jogar o máximo de jogos possíveis.

      ©Carlos Alberto Costa

      Vai para o Granada e é lá que descobre a doença do seu filho, a aplasia medular.
      Sim, passados três dias da minha mulher lá chegar, o meu filho fica internado.

      Como tudo aconteceu?
      Caiu-lhe uma gaveta em cima da perna e ele ficou com uma grande nódoa negra. A minha mulher manda uma foto a um médico daqui e pergunta-lhe se é normal ele ficar assim passado uns minutos. Ela foi a uma clínica lá em Granada, eu fiquei com a Bruna e o Martim em casa que tinha uns 8, 9 meses na altura. Ela liga a dizer que já não deixam sair o meu filho, que tinha de ser internado.

      Dizem logo que doença ele tinha?
      Não, dizem que os exames estão todos alterados e que tem de ser internado de urgência. Foi internado num hospital público de Granada. Um grande amigo meu, que hoje é o padrinho do Gustavo e era dirigente do Granada, o Angel Gonzalez, fez sempre o acompanhamento com a Mónica naquela altura. Falei com ela ao telefone, ela só chorava e dizia que ele tinha uma doença grave. Eu dizia: "Não, não pode ser, o menino está bem. Amanhã já está tudo bem". No outro dia dizem que tem de fazer uma punção, falam em leucemia e que o meu filho corre risco de vida e que se calhar precisa de um transplante... Esteve 17 dias internado. Foi muito difícil. Andei três meses anestesiado.

      Quando efetivamente tem consciência de que o seu filho corria risco de vida o que lhe passou pela cabeça?
      A primeira pergunta que fiz foi: "é preciso pagar o quê para o meu filho estar bem?". Foi quando me explicaram que tinha que dar graças a Deus em encontrarmos um dador. Não era o dinheiro. E tudo aí é uma grande mudança na minha vida, até ao dia de hoje. Eu antes ficava aborrecido, chateado com pessoas. Mudou tudo. Tudo. Hoje em dia já me fizeram mal, mas tudo tem o seu sentido. Já não levo ao limite como levava antes, em que ficava doido, e ficava "ai caraças, apetece-me é partir isto tudo". Não. Nessa altura é que vi que todos nós dependemos uns dos outros. Podemos não nos falar por algum motivo, mas no final de contas se existir alguma coisa essa pessoa se calhar pode ser a salvação da outra. E esses pormenores da tanga com que nos andamos a chatear na vida, esquecem-se, é que não fazem sentido nenhum.

      Até aí nunca tinha ouvido falar de aplasia ou transplante de medula?
      Jamais. Eu nem sabia o que era isso. Quando me disseram eu perguntei "Ok, é preciso pagar o quê? É preciso ele ir para algum lado para ser curado? Digam-me". Foi quando ele me disse: "Carlos, não é dinheiro. Tem que existir alguém, um dador que seja compatível com o teu filho".

      Nenhum membro da família era compatível.
      Não. Esse ano para mim desportivamente foi para esquecer. Eu estava a ponto de bala. Eu ia treinar e de repente virava-me para o treinador e dizia-lhe, vou sair para ir ver o meu telefone, vou ligar a minha mulher. Eles nem me diziam nada. Eu disse-lhes: logo vou pegar na minha família e vou já para Lisboa porque não me interessa o futebol. Esse meu amigo, o Angel, é que me aguentou. Eu sou um gajo persistente nas minhas coisas, e ele é um tipo também assim, porque se estivesse a lidar com um tipo mole, tinha abandonado tudo e tinha vindo embora.

      A sua mulher entretanto vem para Lisboa?
      Numa fase mais adiantada quando decidimos fazer o transplante. Porque até lá, fomos para Sevilha...O que eu fiz! Uma pessoa faz tudo. Ele não podia estar em comunicação com pessoas porque tinha as defesas baixíssimas e era jatos para um lado, era jatos para outro. Existem pessoas com isto que fazem tratamentos ali. É onde? Em Marrocos? Embora para Marrocos. Existem pessoas na Alemanha que não sei quê. Vamos para lá. Uma coisa desesperada. Eu só dizia a eles no Granada que tinha de me ausentar. Se alguém me dissesse um não ou isto ou aquilo, era na hora que me vinha embora. Foram espetaculares comigo.

      Que tipo de soluções lhe foram apresentadas?
      Em Sevilha chegaram a dizer que com uma gravidez em vitro, fazendo um tratamento para nascer um filho com o tipo de sangue do Gustavo... Mas primeiro que engravidasse, depois o tempo de espera e mais não sei quê, e nós a vivemos a situação. Esquece.

      Nessa altura ainda jogou pela seleção?
      Sim, sempre que podia. Nunca ia para estágios, ia diretamente.

      Como é que conseguia jogar?
      Porque eu sou muito forte. Eu jogava pelo meu filho. Andei este tempo todo a jogar, a aguentar o que me fizeram na equipa B do Benfica e depois no Belenenses, que foi um clube espetacular, mas motivação e paixão já não tinha nenhuma. Fazia tudo pelo meu filho Gustavo, tudo, só pensava nele. A minha mulher nas alturas em que eu caía: "Olha o teu filho. Vai gostar de te ver na televisão."

      De quem foi a ideia de fazer o apelo público para aumentar as hipóteses de encontrar um dador?
      Foi minha porque estava desesperado. Eu não aguentava mais. Era transfusões de sangue, de plaquetas (emociona-se)... Muita coisa mesmo. Saía do treino perguntava à minha mulher como é que estavam os resultados, se subisse uma coisinha pouca parecia que o céu tinha aberto só para nós. Se ela dissesse que baixou... .

      O seu filho não tinha consciência do que se estava a passar.
      Não. Hoje tem consciência porque toda a gente pergunta coisas sobre ele, mas não sabe ao certo o que se passou. Ele já pesquisa na internet, mas ainda não teve a consciência real, contada pelos pais, sobre o que se passou. Um dia, quando ele for maior, hei-de contar.

      Qual foi o momento mais critico?
      O momento mais difícil foi antes do jogo de Málaga, em que foi feita uma segunda punção às 11 da manhã para ver o estado da gravidade. Eu e a minha mulher estamos sentados à porta do laboratório como dois miúdos... . Falavam em meses, em 1 ano, em 3 meses... . Foi aí que senti o maior desespero. Mas quando chegava à beira do meu filho, que como não sabia onde estava e tinha os pais perto, fazia um grande sorriso, só de ver o sorriso dele eu ganhava forças. Disse à Monica que ia pedir ajuda a todos. Toda a gente sabia, seleção, clubes. Aguentei um bocado antes de tornar público, até que não aguentei mais. Fomos visto em fevereiro ou março pelo Dr. Abecassis no IPO de Lisboa e ele diz-nos que é de urgência. Foi a primeira vez que foi visto por portugueses. E quando dizem que é de urgência... Eu disse logo à minha mulher que tinha de vir para Portugal. Eu quis vir, mas o Angel aguentou-me. Sempre que quisesse ir a Portugal eu ia, não me diziam nada. Eu fazia a minha vida para bem ou para mal consoante os resultados do meu filho. Se estivessem bons, ia treinar todo contente, se estivessem mal, havia alturas em que pegava no carro à noite e de manhã estava cá a bater à porta. "O que é que estás aqui a fazer?". Eu só dizia: "Porque preciso. Preciso, só".

      ©Catarina Morais

      Acaba por não ir ao ao europeu.
      Fizemos o apelo, há uma adesão fantástica e ganhámos um balão de oxigénio. Nós sentimo-nos mais fortes quando temos o apoio das pessoas, ponto final. Quando as pessoas dizem "eu sozinho consigo", isso é tanga, é porque nunca passaste por elas. Nisso fomos uns privilegiados. Só não dou entrevista na televisão, e estão fartos de pedir para falar nisto, porque ainda não chegou a altura de o meu filho perceber. Ele tem 10 anos, mais 1 ano ou 2 para ele perceber porque depois vai para a escola e os putos na escola, não é por mal, mas podem picá-lo "estiveste quase a morrer".

      A propósito, como tem sido a aprendizagem dele?
      Espetacular. O meu filho está completamente curado. Tem estado num colégio privado, no Ramalhão, em Sintra. Estão todos lá. Lá sabem que era o menino que teve um problema, filho do jogador. Os mais velhos quando me veem perguntam foi este ou foi o outro? Porque ele e o Martim têm 2 anos de diferença. Eu tento protegê-lo ao máximo, até ele ter mais estofo para eu lhe dizer tudo. Mas claro que tem consciência de que se passou algo, não sabe é pormenores, a gravidade e de como em pouco tempo tínhamos de arranjar um dador sob pena de ter de levar cada vez mais transfusões e isso é a pior coisa porque o sistema imunitário pode começar a rejeitar as transfusões. Ele sabe que passou por uma fase difícil, mas nunca tive coragem de lhe perguntar nada (emociona-se), não quero estar a fazer isso ao menino.

      Quando recebem a noticia de que há um dador compatível?
      Existem dois ou três mas que não eram match, isto é que não eram 100% compatíveis. Havia 7 em 10, 8 em 10. O médico ia dizendo, ele ainda está num processo em que aguenta mais um bocado, vamos tentar encontrar. Porque não foi só Portugal que se mobilizou. Em Espanha foi uma loucura, recebi cartas da China, da Rússia, porque o Danny fez lá o apelo. Foi uma coisa...Isto sim faz sentido na minha vida, não é o resto, o resto é para eu passar o tempo e viver porque tenho de fazer alguma coisa. Agora compro uma casa, agora faço um jardim, agora vendo. Mas aquela foi a minha lição de vida. Já fui testado e estou lá. Ou fomos todos testados e correu bem. Agora é vivermos. Aproveitarmos a vida. Mas, voltando atrás, ligam-me do hospital a dizer que há um dador de 9 em 10 e um de 10 em 10.

      Sabem de onde veio esse dador?
      De Boston, nos EUA. Sei que tinha 42 anos e que quando soube que era para um menino de 3 anos prontificou-se logo a dar da medula. Normalmente dão o sangue da veia, mas como era para um menino, disse para lhe tirarem mesmo da medula. Mandou não sei quantos sacos. Quando ele foi fazer o transplante a mudança da vida dele estava num saco de plástico. Isto é... Aquele Dr. Nuno Miranda, eu chorava tanto com ele. Foi espetacular. À frente da minha mulher tentava sempre não chorar, mas quando chegava ao pé dele "Ó Dr. ouça, eu tenho a minha vida em si, este menino nunca ninguém me pode levar Dr.". Ele não queria também dar-me muita esperança e dizia-me: "Ó Carlos eu vou fazer o meu melhor"; "Dr. o melhor para mim não chega você tem que se transcender". Sempre a chorar porque o único meio de chorar sem ninguém ver, era junto dele.

      Ele fez o transplante em 2012, na altura do Europeu.
      Sim, foi descoberto em setembro de 2011 e a 24 de maio de 2012 foi transplantado.

      A Bruna, sua enteada, apercebeu-se de tudo, claro.
      Sim, ela é uma mais valia que temos em casa. Deus tirou-lhe o pai numa altura difícil, mas deu-lhe outras coisas muito boas. Tem um coração maravilhoso. Ajuda-nos muito. Tem consciência de tudo.

      Pede ao Paulo Bento para não fazer o Europeu antes ou depois do transplante do seu filho?
      Recordo-me que quinta e sexta-feira treinamos para a seleção, o meu filho já estava internado na área do transplante. Já lhe estavam a fazer o desmame para levar o transplante da outra pessoa. O Paulo Bento deu-nos o final do dia de sexta, sábado e voltávamos a concentrar no domingo. Quinta-feira depois do treino vou ver o meu filho. Fui passar o fim de semana com o meu filho, dormi lá com ele, só pode dormir lá uma pessoa. E no domingo estou a despedir-me do meu filho. Os meus pais estão lá fora à minha espera porque era um grande orgulho para o meu pai também ver um filho dele num Europeu dado o esforço que eles fizeram. Digo: "Olha filho, agora vais ver o pai durante um tempo ali na televisão. O pai vai fazer um golo para ti, amor". Ele desata num choro: "Ó pai não vás, quero-te aqui, quero-te aqui". Eu hoje tenho uma ligação com o meu filho, não sei explicar de que grau é porque não existe. Agarra-se a mim e eu disse-lhe: "Filho, o pai vai mas amanhã o pai está aqui". Já sabia naquele preciso momento que ia chegar à seleção e ia dizer que não jogava. Entrei no carro com o meu pai e disse-lhe: "Olha pai, tinhas muito gosto em ver o teu filho no Europeu, mas eu venho para o pé do meu". E o meu pai: "Ó filho, não estava à espera de outra reação tua". Cheguei a Óbidos, chamei o Paulo Bento e disse-lhe para chamar outra pessoa para o meu lugar. Foi chamado o Hugo Viana. Vamos inventar aqui uma história que estou lesionado. Isto foi na altura em que ele fez o transplante e as coisas correm bem.

      Fez alguma promessa?
      Agarrei-me muito a Deus e à N. Srª de Fatima. Agarrei-me a tudo o que fiz de menos bom na minha vida. Lembro-me que o meu espaço favorito era o Guincho, ia para lá, fartava-me de desenhar corações na areia sempre com o nome dele. Agarrei-me não sei a quê, sei lá. Nunca aceitei que podia dar para o torto. Mas nunca fiz uma promessa. Agora, rezo todos os dias. Antes rezava quando me sentia mal, hoje rezo todos os dias. Agradeço a Deus por me ter dado a bênção de estarmos todos, sempre todos os dias a partir desse momento. A prova da minha vida foi essa, não foi mais nenhuma. Não foi de ter passado do Sporting para o Benfica, isso são historias para contar, para a gente se rir, uns vão gostar mais outros menos. Mas a minha prova, a minha vida, o meu foco centrou-se aí, ponto final.

      Quando souberam que já não corria riscos e que já está tudo bem?
      Só de há um ano e meio para cá. Isto tem várias etapas. Cinco dias após o transplante as coisas podem mudar. E ele teve recaídas, tanto que se ponderou fazer outro transplante. Mas depois os valores começaram a subir, até que passaram os cinco anos e agora só vai uma vez por ano, para toda a vida. Mas está completamente curado. Até nós, nós percebemos, a minha mulher brinca muito, dá-lhe uma estaladinha de vez em quando e ele fica logo vermelho e nós descansamos.

      É a forma de irem controlando se está tudo bem?
      Sim. Antes o meu filho não ficava vermelho se lhe tocássemos. São pormenores nossos, que já sabemos agora. Torcemos um pouco a orelha na brincadeira para ver se fica vermelha. Antes não ficava, era sangue mau. Eu amo os meus filhos todos de maneira igual, mas aquele por ter passado o que passou, é normal que quando se constipe uma pessoa entre logo em parafuso, logo. Então lá vêm os testes sem ele saber, uma palmadinha na brincadeira ou torcer de orelha, para ver se fica logo vermelho. Se ficar, pronto, sossega. São os nossos truques.

      A seguir ainda tiveram uma filha.
      Eu sempre quis ter uma menina. A Bruna é minha filha, mas eu sempre disse que queria ter uma menina com a Mónica. A Maria Inês foi feita na altura em que estávamos a passar por este processo todo. Foi uma menina tão desejada, tão desejada, que veio 100% compatível com o Gustavo. Quando o médico nos diz: "Temos aqui uma novidade para vocês. A sua filha que acabou de nascer é compatível com o irmão". Há coisas... . Nós ainda temos mais um saco, mas só de termos a nossa menina que é compatível com o irmão... E têm uma ligação os dois que nem imagina. Há coisas que não dá para explicar.

      ©zerozero.pt - Manuel Morais

      Voltando ao futebol. A seguir vem aquela época com o Jorge Jesus, em que é expulso no jogo com o Estoril e ele coloca-o de parte, como o Carlos disse. Alguma vez pensou que por estar a passar o que estava a passar, as pessoas deviam compreender certos comportamentos seus?
      Não. Injustiçado, sim, mas não foi pelas pessoas. foi pelo futebol em si por uma decisão de uma pessoa que hoje em dia não o fazia, porque eu já tive oportunidade de falar com o JJ e sei que não o fazia. Quando ele foi jogar ao Belenenses na altura em que eu já lá estava, reunimos numa sala e ele disse-me que não o fazia se fosse hoje. Errou como eu errei noutro lado. Também fez numa altura quente. Foi uma decisão dele, não o crucifixo, só quero que ele ganhe. Só que foi um marco importante na minha vida, porque foi aí que larguei o futebol por assim dizer. Não me interessou mais clube nenhum.

      Tinha outras propostas?
      Todos a gente me queria. Tinha até para a China a ganhar milhões, tinha Itália, tinha Espanha. Eu foquei-me no meu filho. Na altura, senti-me injustiçado pela atitude daquela pessoa, até pelo que eu já tinha dado ao Benfica, eu era uma pessoa querida no Benfica, sentia isso. Mas depois agarrei-me ao meu filho. O meu filho faz parte de qualquer decisão da minha vida, seja no futebol, seja num negócio. Se tiver uma perda em algum lado, eu seguro-me ao meu filho. Quando algo corre mal e lamentamos, pensamos no que já passámos e abrimos logo a pestana "porra, realmente..."

      De qualquer forma custou-lhe muito ir parar ao Benfica B.
      Imenso. Só eu é que sei o que sofri. Por outro lado, também abdiquei de sair para outro lado. O meu filho era seguido todos os dias pelo IPO e para estar a viver sem ele, era para esquecer, não conseguia. Para ele ir para fora era arriscado. Então, deixa-me ficar.

      Mas esteve para ser emprestado a um clube dos Emirados Árabes unidos, onde estava o José Peseiro, não esteve?
      Sim. Mas aí foi o Dr. Nuno Miranda que me disse que era bom levar o meu filho para lá porque era mais quente, menos propício a constipações. Aí sim, vamos todos. Mas não fomos porque entretanto o argentino que estava para sair de lá não chegou a acordo. E como só podiam inscrever um número limitado de estrangeiros, para entrar um tinha que sair outro. Assinei a desvinculação pelo Benfica. Tínhamos as malas feitas, a pensar que íamos para lá e depois... .

      Como surge o Belenenses?
      Foi um misto de interesses. Na altura o meu empresário era o Pedro Torrão.

      Mas o Paulo Barbosa também foi seu empresário não foi?
      Quando fui para Huelva e quando acabei no Benfica, na equipa B. Depois como já era uma fase descendente dei oportunidade ao Pedro Torrão de arranjar-me alguma coisa perto de casa. Ou era Estoril ou Belenenses.

      Em duas épocas apanhou o Vidigal, o Jorge Simão o espanhol Julio Velázquez e o Sá Pinto. Destes último também foi companheiro de balneário. Como foi o reencontro em posições distintas?
      O Sá Pinto sempre foi uma referência para mim, pela garra. Era parecido comigo, revíamo-nos um no outro. Foi muito bom tê-lo encontrado ali. Fomos à Liga Europa com ele e foram momentos bons.

      ©Catarina Morais

      Quando começa a pensar mesmo em pendurar as botas e dedicar-se a outras coisas?
      Já no tempo do Benfica gostava de casas. Gosto deste ramo. Gosto de comprar velho e pôr novo. É o que faço. Aí começou o bichinho. Claro que não havia muito tempo porque um clube grande obedece a muitas horas de dedicação, mas quando vou para equipa B tenho mais tempo e foco-me em 2 ou 3 negócios que correm bem. Sozinho, com a minha mulher sempre a ajudar-me em termos de design, mas eu a projetar, a contratar os homens, a planear os jardins, tudo o que implica construir uma casa. E percebi que gostava disto.

      É o Carlos que decide sair ou é o Belenenses que o convida a terminar a carreira ou procurar outro clube?
      Os dois. Eu tinha mais um ano de contrato. Mas eu já não fazia todos os treinos, tinha miúdos de 20 anos a querer jogar sempre. Eu aborrecia-me ir aos treinos. Se o Gustavo tinha de ir ao hospital, eu fazia questão de ir.

      Passou tudo a ser feito em função do Gustavo.
      Tudo. Ele é que centrava as coisas e ele é que me dava a possibilidade de eu fazer alguma coisa.

      Isso alguma vez foi um peso para os outros filhos ou motivo de cobrança?
      Não, porque nós sempre tivemos cuidado. Um exemplo. O Gustavo teve muitos anos em que não podia apanhar sol. Eu pegava no Gustavo e ia fazer qualquer coisa com ele enquanto os outros iam com a mãe à praia. Tentávamos agilizar as coisas, mas nunca metemos todos à volta da mesa e dissemos: "não vamos fazer isto, porque não". Sempre tivemos uma maneira de levar as coisas para que nenhum se sentisse e o Gustavo se tornasse um peso para os outros.

      Quando fez a sua primeira tatuagem?
      Em Huelva. Foi a cara de Deus com uma cruz e as iniciais da minha família. Todas as outras são relacionadas com a família. Tenho o nome dos meus filhos, datas nascimento, frases, etc. Nos braços e peito.

      Teve ou tem alguma alcunha?
      Que me lembre não. Sei que me chamavam homem bomba e pé canhão porque o meu filho noutro dia veio dizer-me. Leu em algum lado. Os meus filhos é que têm. O Gustavo é o "papagito", era o que ele dizia quando eu chegava a casa, "o papagito chegou" e ficou o "papagito". O Martim é o "tica-tica" porque não para quieto, anda sempre de um lado para o outro. E a Maria Inês é a minha "prinxêsa". Mas ela tem vergonha, não quer que eu diga à frente dos amigos (risos).

      Onde ganhou mais dinheiro?
      No Benfica. Mas se calhar já ganhei tanto dinheiro no futebol como nos negócios imobiliários.

      Investiu só em imobiliário?
      Sim.

      Qual foi o seu primeiro carro?
      Um BMW 320D, preto. Tinha 18 anos.

      Estampou-se com ele?
      Sim, em Campo Maior (risos). Por cima de uma rotunda. Tinha ido até Espanha a um jantar de equipa, no regresso, com um copito a mais, não vi a rotunda. Foi uma sorte, nem lhe digo.

      O melhor carro?
      Eu adoro Porsches. Tenho Porsches por causa do Sá Pinto. Ele sempre foi uma inspiração para mim e ele sempre teve um Porsche e sempre disse que o carro de eleição dele eram os Porsches e eu meti aquilo na cabeça. Tenho um Turbo S.

      ©Rogério Ferreira

      Ainda joga futebol?
      Não. Deixei completamente. Só com os meus filhos. Jogo ténis de vez em quando com um amigo.

      Não tem saudades de jogar futebol?
      Não. Mas também evito de ir ao estádio porque acho que aí vou sentir saudades. Sinto-me em perfeitas condições ainda, então evito ir. Quando vou ver os jogos dos meus filhos, que estão numa escolinha do Figo, fico irrequieto.

      Revê-se em algum deles?
      Acho que no Gustavo porque pensa mais no jogo. O meu "tica-tica" é isso "tica-tica", é rápido. O Gustavo é mais cerebral.

      Qual foi a coisa que lhe disseram ou chamaram que mais o magoou?
      Foi essa conversa que o JJ teve comigo. Magoou-me muito. Estava à espera que me desse cabo da cabeça, sabendo como ele é, estava à espera de tudo menos de dizer que eu nunca mais ia ser jogador do Benfica.

      Qual foi a sua maior asneira, do que mais se arrepende?
      Não me arrependo de muita coisa. Mas se fosse hoje não tinha contestado muitas coisas que me foram ditas. Nunca faltei ao respeito, mas... É como os meus filhos, eu estou a chamá-los a atenção de alguma coisa e eles têm sempre alguma coisa para dizer. E ou apanhamos uma pessoa que é calma e explica-te que estás mal, não digas isso, ou se não apanhas essa pessoa, risca-te logo. Os meus filhos respondem, mas não são mal educados para mim. Como eu nunca fui para um treinador. Apenas sempre disse o que pensava.

      Sente que foi incompreendido.
      Não. Simplesmente eu tenho a mania de falar, gosto de argumentar, de dizer o que penso, isso sai-me naturalmente. E hoje em dia o que posso dizer é que se tivesse de não fazer alguma coisa, eu não falava tanto. Engolia mais. Porque muitas coisas avançaram por eu ter falado mais um bocado. Ou por ter dito uma coisa totalmente diferente da que o treinador me estava a dizer. Se fosse treinador, se apanhasse um jogador assim, refilão, se calhar também lhe dizia: "cala-te que já nem te posso ouvir, sai.".

      Qual é a sua maior frustração no futebol?
      Nunca ter ido a um Europeu.

      Quem são as maiores amizades que fez no futebol?
      O Miguel Garcia, por exemplo. Desde os 12 anos que nos conhecemos. É o meu confidente e eu sou o dele. Uma relação extraordinária.

      Fez um casamento muito pomposo, grande. Porque sentiu essa necessidade?
      Eu já sou casado há 10 anos, mas pela igreja só casei agora e essa foi a festa maior. Porque eu, a minha mulher e a minha família tínhamos de viver isto. Não me interessa o dinheiro, desde que não me falte para eu viver. Vou gastá-lo sempre com a minha família. Porque hoje estamos aqui e amanhã posso estar num hospital e ter muito dinheiro, o que me aconteceu, dizer ao Dr. que quero comprar ou fazer qualquer coisa e ele dizer-me que não. Gasto o meu dinheiro nestas coisas. Gasto muito? Gasto. Porque já vivi o contrário, já vivi o que é ter dinheiro e não poder gastá-lo porque na saúde... Hoje estamos bem e daqui a uma hora, um dia uma semana, podemos já nem gastar o que está cá.

      Qual foi a maior extravagância que fez com dinheiro?
      Não tenho muitas extravagâncias. O casamento foi a maior num só dia. Mas fazia novamente porque foi um momento lindo. Sempre disse à minha mulher: quando o nosso filho estivesse bem, queria que eles vissem os pais a entrar pela igreja. Quando o Dr. Nuno Miranda disse que ele estava bem (estou a arrepiar-me todo), eu disse "vou rebentar com isto tudo". E foi. E fazia hoje novamente. Em prol da minha família faço tudo.

      Portugal
      Carlos Martins
      NomeCarlos Jorge Neto Martins
      Nascimento1982-04-29(38 anos)
      Nacionalidade
      Portugal
      Portugal
      PosiçãoMédio (Médio Centro) / Médio (Médio Ofensivo)

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      Comentários (1)
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      motivo:
      Carlos martins
      2020-06-01 17h54m por fifizinhodos
      Jogador banal mas aqueles remates a longa distância vai la vai
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