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Segunda parte da entrevista a Candeias

Problema de anemia no Porto, estabilidade na Madeira e falta de oportunidades na Luz: «Devia ter sido vendido mais cedo...»

2019/10/23 14:30
Texto por Hugo Filipe Martins com Rodrigo Coimbra
E1

Parte I - Da conversa com Gerrard aos 45 minutos loucos na Turquia: «Foi um dia fantástico!»

Da Turquia à Escócia, voltamos a Portugal. A conversa com Daniel Candeias foi longa e deu para atravessar praticamente toda a carreira do extremo, que passou por vários clubes em Portugal e no estrangeiro.

Daniel Candeias
FC Porto
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Do FC Porto, onde se formou, ao Nacional, onde ganhou destaque, Candeias puxou a fita atrás, sem deixar de falar no Benfica, onde não teve oportunidades para se mostrar.

Ao zerozero, o extremo, em destaque agora na Turquia, não deixou nada por dizer e até apontou ao futuro.

A próxima entrevista já está combinada: fica para o primeiro póker da carreira.

Daniel Candeias chegou à equipa principal do FC Porto pela mão de Jesualdo Ferreira ©Getty / Ben Radford

ZZ: Recuemos à tua infância. Como é que aparece o futebol na vida de um miúdo de Fornos de Algodres?

DC: Eu comecei no clube da minha terra, na AD Fornos de Algodres. Jogava um escalão acima, fui a um torneio de Associações, pela Associação da Guarda e como jogava num escalão acima os olheiros do FC Porto viram-me jogar, já tinha feito captações, na altura fui selecionado para ficar e a partir daí o meu caminho foi o FC Porto, com 13 anos. Cheguei a um clube grande, que todos os jovens gostavam de representar. Foi o início de pensar que estava ali para o meu sonho. Nem todos chegaram a profissional, mas quando estás ali tens sempre esse sonho e o FC Porto foi importante na minha formação.

ZZ: Foste sozinho?

DC: Tive de deixar a família. Fiquei no lar do FC Porto, onde ficam os jovens que vêm de mais longe. Foi importante para o meu crescimento. Saí de casa com 13 anos. Vejo miúdos com 13 anos, hoje em dia, que não tinham essa capacidade de deixarem a família e ter de se desenrascarem sozinhos, apesar de termos a ajuda dos profissionais do FC Porto, psicológos e assim, mas isso fez-me crescer rápido e foi importante na minha formação como homem.

ZZ: Como era essa equipa do FC Porto? Na altura fazias parte de um grupo que prometia...

DC: Tinha o Castro, o Ukra, o André Pinto, o Ventura, o Rui Pedro e outros mais que não chegaram a profissionais como estes, mas tínhamos grandes jogadores. Sabe-se que no futebol não é só qualidade, é preciso sorte. São muitos jovens com esse sonho. Tínhamos grandes jogadores, é pena não terem aproveitado mais essa fornada de jogadores. Na altura não havia equipa B como agora, se houvesse talvez fossem aproveitados mais jogadores da nossa geração. Se fosse agora era diferente. Com equipa B não tinhas de sair do clube. Ao saírem tantos jogadores nem conseguem colocar todos em clubes bons para desenvolver o futebol. Acho que hoje éramos mais aproveitados.

ZZ: Há algum jogador que na altura achavas que ia chegar longe e acabou por não conseguir?

DC: Tinha jogadores que olhava e dizia que "estes têm de chegar". Tinha o Fabinho, que era número 6, hoje continuamos a falar, somos amigos, jogamos futebol nas férias e via que tinha grande qualidade, mas por uma ou outra razão não conseguiu. O futebol é mesmo assim. Se fosse agora houvesse mais oportunidades... Mas a vida continua e o importante é que ele e todos esses Fabinhos estejam bem.

ZZ: E o início da tua carreira profissional, como recordas?

DC: É preciso ter alguma sorte. Quando saí dos juniores do FC Porto tive a sorte de ir para o Varzim, apanhei um grupo fantástico para os jovens, com o Neto, Yazalde... Foi importante. Fiz uma boa época, com um treinador que apostou em mim, o Diamantino Miranda. Se não fosse isso, se calhar não tinha tido a carreira que tive. Isso é importante. Não é fácil sair dos juniores e ter treinadores que apostem em jovens na Segunda Liga

ZZ: Depois voltaste ao FC Porto, estreaste-te com o Jesualdo...

DC: Tinha feito uma boa segunda Liga, fui considerado o melhor jovem pelos treinadores e ambicionava regressar ao FC Porto. Regressei pela mão do Jesualdo Ferreira, aprendi muito com ele, ajuda muito os jovens. Foi fantástico regressar à casa-mãe. Era o meu sonho e concretizei-o.

ZZ: O que achas que faltou para teres continuidade?

DC: Na altura tive um problema de anemia e isso atrasou o meu processo. Tive de ficar fora alguns meses, fui emprestado ao Rio Ave e quase não joguei por causa desse problema. Acho que isso atrasou a minha afirmação. Comecei bem no FC Porto, a minha estreia foi no Estádio da Luz, com um Benfica x FC Porto. Não é qualquer jovem. Fui uma aposta séria do Jesualdo, senão não tinha sido aposta nesses jogos. Talvez tivesse sido essa questão a atrasar a minha afirmação, mas é o futebol. Olhei para a frente, tentei continuar a minha carreira sem olhar para trás. Estou contente, podia ter mais oportunidades, mas a vida é assim.

Candeias viveu grandes momentos ao serviço do Nacional ©Carlos Alberto Costa

«Tenho um carinho muito especial pelo Nacional»

ZZ: A estabilidade apareceu na Madeira, no Nacional, não foi?

DC: É importante, quando ficas várias épocas no mesmo clube. É aí que podes desenvolver o teu futebol. O Nacional acolheu-me de forma fantástica, tenho um carinho especial pelo clube. Foi importante para o meu desenvolvimento, fiz três grandes épocas e foi um clube muito importante para mim.

ZZ: Foi o melhor momento da tua carreira?

DC: A última época foi fantástica. Fui dos melhores assistentes da Liga, estava em final de contrato e foi uma época fantástica, que me levou a um patamar diferente, mas não tive as oportunidades que acho que merecia ter.

ZZ: Fazia parte dos teus objetivos regressar a um grande?

DC: Eu sabia que tinha qualidade para isso e estava a demonstrar no campeonato, com o Nacional e queria voltar a um grande. Se podia fazer o que fazia no Nacional, num grande ainda podia fazer melhor, mas não tive as oportunidades. Não me arrependo da decisão [de assinar pelo Benfica], achei que era a melhor para mim. Voltei a um dos grandes, mas não tive a felicidade de fazer o que estava no meu pensamento.

ZZ: Achas que não tiveste as oportunidades para te mostrar no Benfica?

DC: Sinto isso. Se fiz o que fiz no Nacional, numa equipa dita pequena, demonstrei que tinha qualidade para outros patamares acho que merecia oportunidades que não me foram dadas. Sabia que ia encontrar bons jogadores na minha posição - Gaitán e Salvio -, mas sabia que ao trabalhar como trabalho, e eu sei o que faço durante a semana, a minha oportunidade ia chegar. Eu sei esperar e ia aprender com esses jogadores, que têm qualidade e quando treinas e jogas com eles também melhoras. Não entenderam assim e segui o meu caminho. Acho é que fui vendido tarde. Devia ter sido vendido mais cedo, andar constantemente emprestado não é bom para um jogador, que não tem a estabilidade que tive no Nacional e no Rangers, por exemplo.

ZZ: Se voltássemos a 2014, ao dia em que recebes o contacto do Benfica, o que farias?

DC: Talvez não tivesse tomado essa decisão. Sabendo o que sei hoje, certamente não a tomava. Foi a decisão que tomei, já passou e agora é bola para a frente.

ZZ: Eras um destaque do Nacional, dos principais nomes da Liga na altura e acabas por ir para a segunda divisão alemã. Sentiste que era um passo atrás?

DC: Antes de aparecer essa proposta tive umas propostas da Primeira Liga espanhola e na altura o Benfica disse que não. Passado três semanas aceitaram o meu empréstimo para a Segunda Liga alemã. Não estava à espera tendo em conta a época anterior, mas depois de chegar a um clube como o Nuremberga, ver a segunda divisão alemã, pensei que era um passo em frente. Estava a mostrar o meu futebol fora de Portugal e podia ir para a Bundesliga. As coisas começaram a correr muito bem, até dezembro foi fantástico, mas a troca de treinador prejudicou-me. Aí tive a oportunidade de ir para a Primeira Liga espanhola, para o Granada, e tomei essa decisão.

ZZ: Como foi jogar no campeonato espanhol?

DC: A La Liga é fantástica, a melhor do mundo, mas cheguei no último dia de transferências, a uma equipa que já estava montada... Tive oportunidades, mas não mostrei o que valho. Adorei estar lá, foi uma boa experiência, mas talvez neste momento estivesse mais preparado e conseguisse mostrar o meu futebol.

ZZ: Ao longo da carreira guardaste carinho especial por algum clube?

DC: Guardo pelo Nacional. Foi um clube que me deu estabilidade para mostrar o que valia e consegui mostrar, apesar de em Portugal não aproveitarem os jovens. Agora estão a aproveitar e é de valorizar, já deviam ter aproveitado mais cedo. Depois, o clube que me formou, o FC Porto. Foi onde me estreei, é um clube que tenho muito carinho e vou respeitar e claro o Rangers vai ficar marcado na minha carreira pela forma como me trataram, pelo carinho das pessoas e pelos dois anos que fiz lá, que foram fantásticos.

ZZ: E treinadores? Quem te marcou?

DC: O Diamantino, que apostou em mim numa altura em que estava a passar de júnior para profissional. Nunca me vou esquecer disso. O Jesualdo, que me lançou na Primeira Liga e o Caixinha, que me marcou no Nacional e depois, tenho um carinho imenso e vou sempre ter. Fez-me evoluir bastante e elevou o nível do meu futebol. Fico agradecido por ter sempre acreditado nas minhas capacidades.

Candeias criou uma excelente relação de amizade com o colombiano Alfredo Morelos ©Getty / Sergei Fadeichev

Candeias deixou muitos amigos no Rangers

ZZ: Alguma amizade especial no futebol?

DC: Em Portugal, claro, mas no estrangeiro tenho muitas amizades no Alanyaspor e no Rangers. Ainda hoje e quando estava no Rangers os jogadores do Alanyaspor mandavam mensagens, quando joguei com eles o presidente veio ao balneário cumprimentar-me e isso mostra que o meu trabalho foi reconhecido. No Rangers mandam mensagens e isso deixa-me feliz. É sinal que fiz um bom trabalho e que fui um bom profissional. Isso deixa-me feliz.

ZZ: E jogadores? Qual foi o defesa mais duro que encontraste?

DC: Já defrontei o Marcelo, do Real Madrid, tive duelos interessantes na Escócia com o Tierney, que agora está no Arsenal. Foram duelos intensos, que gostei de defrontar. Era um adversário duro.

ZZ: Aos 31 anos, o que ainda te falta fazer?

DC: Ainda há muita coisa para fazer. Agora estou a começar esta nova aventura, tenho objetivos, claro. Os da equipa e os individuais. Vou dar o meu melhor para continuar nesta forma e dar tudo pela equipa.

ZZ: Que objetivos em concreto são esses?

DC: No primeiro ano, na Escócia, fui o melhor assistente da Liga e aqui não quero ser diferente. Quero estar entre os melhores e vou trabalhar para isso. Sozinho não consigo, mas os meus companheiros têm-me ajudado bastante.

ZZ: Ainda te vamos voltar a ver em Portugal?

DC: Agora é difícil voltar, mas quero voltar a jogar na Liga portuguesa, sem dúvida. Não sei quando, mas quero regressar. O meu pensamento passa por ficar aqui mais uns anos e depois voltar a Portugal e terminar na Liga portuguesa.

ZZ: Como é o Candeias fora do futebol? Sabemos que tiveste agora um segundo filho.

DC: A minha namorada sempre me acompanhou, mesmo no Nacional. Foi muito importante para mim. O nascimento do meu filho, quando estava em França, deu-me responsabilidade e veio estabilizar a minha vida. Ter um filho é fantástico. Na Escócia tive uma menina e é a minha família que me dá apoio quando estou mais em baixo. Chegar a casa e tê-los é uma alegria imensa, esqueço tudo o que se passa no futebol. Eles são realmente uma força importante para mim.

ZZ: A carreira de futebolista não é tão fácil como dizem, pois não?

DC: Toda a gente fora do futebol pensa isso. Veem milhões. Nem todos são o Ronaldo ou o Messi, que ganham esses milhões. Não é fácil, a pessoa que te acompanha deixar a vida para estar contigo. Os meus filhos estavam na Escócia, ele estava na escola e teve de trocar a vida toda. São crianças que parece que não entendem, mas sentem.

ZZ: E se te ligarmos no final da época, o que gostarias de ter para nos dizer?

DC: Se falarmos espero estar entre os melhores da Liga turca em termos de assistências. Gosto de fazer assistências e espero que no final da época o Gençlerbirligi fique na Primeira Liga.

ZZ: E que tal esse contacto ficar combinado para o primeiro poker da carreira?

DC: Isso seria fantástico. [risos] Fazer o primeiro hat-trick foi maravilhoso e da forma que foi... foi fantástico, mas não posso pensar nisso. Vou pensar no próximo jogo. Fazer um hat-trick não é fácil, mas se voltar a acontecer vou ficar feliz, claro.

Portugal
Daniel Candeias
NomeDaniel João Santos Candeias
Nascimento1988-02-25(31 anos)
Nacionalidade
Portugal
Portugal
PosiçãoAvançado (Extremo Direito) / Avançado (Extremo Esquerdo)

Fotografias(50)

Candeias
Comentários (1)
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motivo:
AN
Hum
2019-10-23 16h08m por Andreyoan
Lembro me perfeitamente da estreia dele na Luz vs o Benfica
Fez um remate em curva tipo remate banana
Mas é ótimo jogador
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