A preto e branco
Luís Cirilo Carvalho
2019/12/02
E1
"A Preto e Branco” é uma coluna de opinião que procurará reflectir sobre o futebol português em todas as suas vertentes, de uma forma frontal e sem tibiezas nem equívocos, traduzindo o pensamento em liberdade do seu autor sobre todas as questões que se proponha abordar.
No mundo fascinante do futebol, poucas profissões se revelam tão interessantes, mas também tão inseguras e tão variáveis nas avaliações que sobre ela se fazem a cada momento, como a de treinador.
 
Se os grandes jogadores fazem o espectáculo, criam os lances geniais, concebem as jogadas que perduram na memória e por isso ficam para a lenda do futebol, também é verdade que sem o trabalho dos treinadores tal não seria possível, porque sendo o futebol um desporto colectivo (com espaço para as grandes individualizações, é claro), são os homens que comandam a “máquina” que tornam possível o maior espectáculo desportivo à face da Terra.
 
É uma profissão fascinante, sem sombra de dúvida, mas também a profissão ligada ao futebol em que se passa mais depressa de bestial a besta - quantas vezes nos escassos (para esse efeito) noventa minutos que dura um jogo -, porque o treinador é sempre o bode expiatório mais à mão para justificar resultados em que vastas vezes é o menos responsável.
 
Nos mais de cem anos de competição que o futebol já leva, é fácil recordarmos os nomes de tantos e tantos jogadores que ficam para a lenda, desde os de categoria mundial cuja valia ultrapassa a fronteira de clubes e países, até àqueles que se destacaram no clube de cada um de nós e que ficam na nossa memória clubística, mas já não é tão fácil recordarmos os nomes de treinadores em igual quantidade, porque pese embora a sua importância decisiva no jogo não ficam tão ligados ao imediatismo do grande golo, da grande defesa, do grande drible ou da grande jogada como os executantes propriamente ditos.
 
Aliás, estando a História do futebol pejada de grandes treinadores, desde pelo menos os anos 30 do século passado, são poucos aqueles que deixaram uma marca mais decisiva no futebol que as grandes vitórias obtidas em clubes e selecções. E esses são os que para lá de ganharem troféus e títulos conseguirem criar sistemas de jogo que perduraram para lá do tempo em que foram criados e constituíram factores de inovação do próprio futebol.
 
Foram os casos de Herbert Chapman, com o revolucionário “WM”, de Helénio Herrera, que aperfeiçoou até ao limite da eficácia o “catenaccio” de Nereo Rocco, de Rinus Michels, que criou o conceito de “futebol total” e foi escolhido pela FIFA como melhor treinador de sempre fruto desse extraordinário modelo de jogo, e da dupla Cruyff/Guardiola, que inventou o “tiki taka” que permitiu extraordinárias vitórias ao Barcelona e é o último (até à data) grande e revolucionário modelo de jogo.
 
Terá havido mais um ou outro, mas são realmente muito poucos os treinadores que além de ganharem os tais troféus e títulos também mereceram a “imortalidade” futebolística pela sua criatividade em termos de conceitos de jogo.
 
César Luis Menotti, Arrigo Sachi, Fabio Capello, Alex Ferguson, Stefan Kovacs, José Mourinho, Bob Paisley, Jürgen Klopp, Arsène Wenger, Bill Shankly, entre muitos outros que poderia citar, foram e são treinadores de enorme sucesso pelo que fizeram em clubes e selecções, mas aos quais ninguém associa a criação de um dos tais modelos de jogo que perdura para a História do futebol.
 
E por isso quando se fala dos grandes jogadores que integraram grandes equipas, das grandes equipas que conquistaram troféus e títulos, dos troféus e títulos que deram glória e palmarés a clubes e países, é bom que fique sempre a justa recordação de que nada disso seria possível sem os tais homens que exercem a tal profissão tão fascinante quanto instável que é a profissão de treinador.
 
É oportuno recordar isto nestes tempos em que cada vez mais o treinador é o elo mais fraco, em que cada vez mais frequentemente é o bode expiatório dos erros dos presidentes e conselhos de administração das SAD, em que ano após ano as “chicotadas psicológicas” parecem ser a única solução para o mau planeamento das épocas ou até para a má sorte própria do jogo propriamente dito.
 
Sem invalidar, como é óbvio, que, sendo humano, o treinador também falha, também erra, também faz más leituras do jogo, também toma opções erradas no decurso do mesmo. Quem viu, a título de exemplo , os recentes jogos do “meu” Vitória com Standard de Liége e Vitória FC ou o Leipzig-Benfica terá identificado, sem qualquer dificuldade, um conjunto de decisões erradas de Ivo Vieira e Bruno Lage que estiveram na origem de as suas equipas não terem ganho jogos que estavam perfeitamente ao seu alcance. Que foram das leituras erradas dos jogos aos enormes erros nas substituições que fizeram e nas que não fizeram.
 
Também por isso a profissão de treinador é tão fascinante (e tão instável), por permitir que, sem jogar, o treinador tenha tanta importância nas vitórias, empates e derrotas como os jogadores. E às vezes mais.


Comentários (1)
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TI
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2019-12-03 11h12m por tink
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