Toque de letra
Tomás da Cunha
2019/07/04 18:35
E0
Sei que não há explicação para tudo o que acontece dentro de campo, mas não me conformo. Falemos de dúvidas e inquietações, do passado e do futuro, dos génios da táctica aos treinadores da alma. E dos artistas, claro. Que seja o que o futebol quiser.

O homem de cristal pendurou as chuteiras. Depois de mil diagonais da direita para o centro e de uns quantos golos em modo de fotocópia, é válido e justíssimo instaurar o “golo à Robben”. Ainda hoje nos perguntamos como é possível que o mesmo movimento resulte tantas e tantas vezes. Todos sabiam o que ia acontecer, mas poucos conseguiam impedir que acontecesse. O holandês deixa-nos obras de arte para recordarmos durante algum tempo – como a maldade que fez a Iker Casillas no Mundial 2014. 

Robben está longe de ser o protótipo de jogador perfeito. Tinha tendência para o individualismo e queria ser protagonista, desprezando a equipa em certos momentos. Só usava o pé direito para subir para o autocarro. Andava sempre a mil à hora, deixando a racionalidade de lado. Nunca foi um grande atleta, bem pelo contrário. Certamente estão a achar estranho que, no momento em que acaba a carreira, eu esteja a fazer uma lista de defeitos e não de qualidades, mas é precisamente aí que quero chegar. O holandês era um futebolista singular, rebelde, com um estilo só dele. Não cumpria os padrões. Fazia o que queria, como queria. Pensemos: existe outro igual a Robben?

Numa altura em que os jogadores estão cada vez mais formatados para obedecer a regras, quem nos diverte são os artistas com pensamento próprio. Terá sido sempre assim, por certo, mas agora é a dimensão tática que está no topo da pirâmide - há treinadores que querem ser mais importantes do que quem vai lá para dentro. Criam-se “profissionais” desde cedo, com todas as ferramentas possíveis para chegarem lá acima e entrarem nesse sistema. Já vão longe os tempos em que os miúdos cresciam com a bola e a utilizavam como queriam. 

Para ser futebolista, Robben inspirou-se nele próprio. Não deve ter visto assim tantos jogos na televisão e não ficou contaminado pela necessidade de comparação que as redes sociais nos trouxeram. Quantos querem imitar Messi, Ronaldo ou Neymar, mesmo que seja de forma inconsciente? É mais difícil desenvolver um estilo único quando olhamos demasiado para os outros. E nós, que vemos de fora, também andamos constantemente a tentar encontrar semelhanças em vez de valorizarmos as diferenças. Todos já imaginámos estar a ver um “novo Messi” ou um “novo Ronaldo” quando um rapaz de 16 anos faz algo que nos recorde os craques. São vícios prejudiciais, claramente.

Não há jogadores iguais, mas há jogadores cada vez menos diferentes. O futebol precisa de Riquelme, Ibrahimovic e Dani Alves. De gente que pense pela própria cabeça. De quem nos aumente o campo da imaginação. Esses serão sempre lembrados pela magia e pelo estilo inconfundível. Todos temos uma atração por quem vive segundo as próprias regras, não é verdade? Sejam como Robben – mas não iguais a ele. 



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