Pontapés na atmosfera
Pedro Fragoso
2019/03/11 23:51
E2
Estudei Ciência Política durante 5 anos, em juvenil fui guarda-redes federado e cheguei a sofrer doze num só jogo. Qual a relação entre as duas coisas? Talvez nenhuma, talvez isto ande tudo ligado, como canta o grande SG gigante, Sérgio Godinho. Podem ouvir-me nos podcasts Matraquilhos e O dia em que vi jogar.

À porta do pub, ainda melancólicos após um resultado inesperado, alguns adeptos do Leeds abrigam-se da chuva britânica. Está escuro, o inverno tem sido o que dele se esperava na ilha que não sabe se ficará na União Europeia. Tal como os políticos britânicos, os adeptos do clube local estão indecisos entre vaguear pelas ruas até casa ou entrar no bar para afogar as mágoas. Quem não tem a mínima dúvida em procurar refúgio naquele local é um grupo de três homens na casa dos sessenta anos, cabelos grisalhos, bem vestidos: Gian Piero Gasperini, Luís Castro e Quique Setién.
 - Este Bielsa...que loucura, desabafa Castro.
 - Uma vez fui assistir a um treino dele em Bilbao...
 Castro interrompe de imediato Setién, com um sorriso irónico:
 - Também estavas a espiar?
 - Andámo-nos a espiar uns aos outros desde sempre, amigo Castro.
 - É verdade. Aliás, este nosso convívio é uma espécie de espionagem amigável. Já pensaram na próxima viagem?
 Gasperini, que até aqui absorvia a conversa em silêncio e havia sido ele a sugerir Leeds, tem algo em mente:
 - Temos que ir a um sítio com melhor cerveja ou melhor vinho. E onde se jogue bom futebol, claro. Frankfurt?
 - Aquele malandro do Adi Hütter está endiabrado. Quique, continuas a jogar xadrez? Já te colocaram em xeque...a impaciência dos adeptos torna-se complicada de perceber.
 Gasperini não deixa o espanhol responder:
 - Luís, ainda te surpreendes com esta idade? Estamos aqui três tipos já veteranos no futebol que, se por um lado são venerados pelos chamados românticos do futebol, por outro vivem de resultados e das reações da maioria dos adeptos que facilmente se esquece do que aconteceu no mês passado - sem troféus tudo se transforma em notas de rodapé de almanaques pouco lidos.
 - E quando as coisas te correm mal tens sempre outro treinador a quem te vão comparar, maioritariamente de forma injusta. Nós temos um passado, caramba, temos um ADN de treino que tem evoluído ao longo dos anos, às vezes com sucesso...
 Quique interrompe o português:
 - O que é o sucesso, para ti? Títulos? Eu acabei de perder uma meia-final da Taça e parecia que tinha sido eliminado na primeira ronda por uma equipa amadora.
 - Quique, não me estou a queixar, temos que conviver com esta filosofia e focar-nos naquilo que nos dá prazer. Adoro treinar e aprender com os mais novos. Já conhecem o Severino, o meu adjunto, não já?
 - Ainda tenho lá o livro do Saramago que ele me emprestou, deixei-o em Bérgamo, diz-lhe que o devolvo no nosso próximo encontro.
 - Eu adoro partilhar ideias com o Severino e com a minha equipa técnica.
 - Isso ainda serão hábitos dos tempos da coordenação da formação do Porto, Luís?, questiona Quique Setién, ele que, ao contrário dos companheiros de viagem não tem historial de treino nas camadas jovens.
 - Sabes, não tenho saudades do tempo da formação.
 Gasperini parece querer desafiar o português:
 - Mas não te deram mais crédito quando ganhaste com a equipa B do Porto do que com o trabalho que tens feito na Primeira Liga nas últimas três épocas? A mim só não me dão mais valor pelo que fiz no Inter porque estive lá pouquíssimo tempo. Mais dois meses e uma vitória num derby, ui, seria recordado a vida toda por isso, mais do que por estes anos todos de anti-catenaccio.
Setién parece divertido:
- Parecemos três velhos a lamuriar. Ainda hoje cantam o meu nome na Gran Canaria e há vários treinadores jovens que nos encaram como exemplos. Eu já não aspiro a chegar a Barcelona ou a Madrid - já me contento quando um miúdo vem ter comigo para elogiar o meu estilo e dizer que sou exemplo a seguir. Ainda vamos ouvindo e lendo coisas destas.
- Mas os treinadores jovens de hoje em dia não parecem querer o sucesso a todo o custo? Em Portugal temos alguns exemplos.
- Outra vez a conversa do sucesso: achas que daqui a 20 anos falarão do Vitória do Castro, da minha Atalanta ou do Betis do Quique caso não consigamos um título? Serão poucos os que se lembrarão da dupla magnífica Roque Mesa-Jonathan Viera comandada por este nosso amigo.
- Hey, temos um avião para apanhar. Em Frankfurt continuaremos e precisamos de mais tempo. Quero aprofundar com o Luís uma ou duas coisas que ele me comentou quando o Bielsa fez aquela dupla substituição. Como sabem, eu gosto da ordem...
- Dedica-te ao xadrez, velho - dispara, entre risos, Gasperini.
- Olha que eu sou daqueles que se lembra da dupla Motta-Milito em Genova, meu caro, não mereço provocações dessas. E concordo contigo: o Gran Torino do Eastwood. Belíssimo filme, zero prémios. Desgraçados daqueles que daqui a 20 anos só se lembrarem de ver filmes vencedores de Óscares.
Setién está divertido, este convívio com os amigos de outros países do sul da Europa e feitos longe de casa deixa-o bem humorado.
- Sou eu a pagar, não sou?
- Sim, és tu. Tivesses vencido o Bordalás e quem pagava isto era o nosso amigo italiano. 



Comentários (2)
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DA
Artigo fantástico
2019-03-14 08h41m por daniel_fcporto
A forma como passa a mensagem de uma forma humorística e descontraída é muito inteligente! Chapeau!
Artigo :)
2019-03-12 11h39m por LordCruzV
Belíssimo artigo, três grandes técnicos, três grandes ideias de futebol bonito
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